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Vera Lúcia Correa Couto

Bruna Santine

Vera Lúcia Correa Couto trabalhou na superintendência Regional de Ensino como secretária da diretoria, no gabinete. De Belo Horizonte, veio para Poços em 1992,e como já trabalhava na área de educação em Belo Horizonte, pediu transferência para a cidade, pois desejava aposentar-se em Poços de Caldas.

Conheceu Poços através de uma irmã que morava na cidade, veio a Poços uma única vez para uma visita rápida e logo se mudou com toda a família. “Fui conhecer Poços depois que me mudei”, brinca ela.

Em 1992 trabalhava como secretária da diretoria da superintendência Regional de Ensino. Sobre o ambiente de trabalho, Vera Lúcia comenta da proximidade das pessoas. “Quando comecei no meu trabalho, andando pela cidade, todo mundo conhecia as pessoas da superintendência, na verdade, todos da cidade se conheciam, o que não existia em Belo Horizonte”, analisa a aposentada.

Nesta época, a cidade era menor e preservava características interioranas. Vera Lúcia então muda-se com o marido e os três filhos adolescentes. O marido, largou o emprego na capital mineira para acompanhar a esposa.

O frio foi um fator estranhado pela família já que as temperaturas enfrentadas em Belo Horizonte eram altas. “Hoje ainda sofro com o frio. Quando cheguei, em dezembro, eu ainda me protegia muito do frio, mas me adaptei”, reforçou.

Católica, a vendedora sempre frequentou a igreja matriz, onde pode fazer bons amigos além dos do trabalho. Sempre participando de grupos de oração, foi catequista na igreja São Domingos para crianças de 8 a 9 anos. “As crianças tinham interesse, eram educadas. Quando precisei sair, elas foram muito amorosas deixando recados para mim”, conta a então catequista.

A venda de cosméticos iniciou-se ainda em Belo Horizonte, por isso, quando se mudou para Poços, continuou com a atividade. “Eu vendia para as minhas colegas de trabalho, através do meu emprego e dessa atividade extra conheci muitas pessoas na cidade, essas ocupações foram ótimas para eu me ambientar a cidade”, comemora a vendedora. A confiança era um ponto forte do trabalho de Vera. “As pessoas confiavam no que eu vendia. Com essa atividade eu conseguia cobrir as despesas da casa, além do salário que recebia”, diz.

No começo dos anos 90 o trabalho com venda de cosméticos começava a se tornar mais comum, as reuniões em casas de clientes eram rotineiras. “Hoje conheço muita gente, as pessoas me chamam pelo nome, e eu não sei quem é”, relata a vendedora.

 Vera fala da sua preferência pela cidade. “Gosto muito de Poços, toda a minha família aproveita para passear na cidade. Minhas irmãs adoram a feirinha, as praças e o coreto. Não tenho saudade de Belo Horizonte, somente da família. Hoje quando vou a capital, aproveito para rever as minhas irmãs, a cidade mesmo não ando”, confessa ela.

Pierre Alexander foi a primeira marca que a vendedora começou a comercializar, e foi através disso que ela pode conhecer pessoas além do trabalho na educação. Deste modo conheceu outras marcas e foi se adaptando ao mercado. “Hoje administro uma equipe que vende para mim”, explica.

Desde o início o trabalho funcionava através de convites as pessoas e do trabalho dessas pessoas Vera ganhava comissão.  A New Harmony era outra marca famosa na cidade, no início da década de 90. “Tínhamos toda a cobertura para trabalhar, os diretores vinham frequentemente. Há clientes que ainda procuram pela marca, principalmente por produtos especiais que são difíceis de encontrar, eu ainda consigo, mas a empresa tem poucas atividades”, conta ela.

Morou no bairro Santana e também no centro, por isso sempre aproveitou a cidade a pé. “Não conhecia meus vizinhos, sempre estava trabalhando, mesmo hoje não há mais essa proximidade com os vizinhos”, lamenta. Porém, Vera conserva clientes que tinha desde o início do trabalho.

Outra área que a aposentada sempre trabalhou foi com o marketing multinível, trabalhou com a TelexFree, empresa barrada pela justiça, foi provada que era uma empresa idônea e vai retornar com o trabalho, segundo a comerciante. Essa atividade foi outra maneira de se conectar as pessoas. Esses trabalhos eram considerados pirâmides. “O INSS é uma verdadeira pirâmide, esses trabalhos não, as pessoas não sabem o que é uma pirâmide. Quem fica com todo esse dinheiro do INSS? E para onde vai esse dinheiro?”, questiona a aposentada.

Por causa do trabalho, Vera é conectada, trabalha através do Whatsapp e se comunica através do email. Através de um grupo de marketing multinível, como ela denomina, Vera conhece outros trabalhos que consegue receber dinheiro, além do que ela recebe com a venda dos produtos de beleza. “Os valores com o trabalho podem chegar até a R$ 8.000 por mês, que é o nível mais elevado”, reforça.

Vera comenta como gosta de não ter mais compromisso com datas e horários. Depois de aposentada, gosta de administrar seu próprio tempo e através dos grupos que participa conhece muitas pessoas. “O maior benefício de participar de grupos de curso ou trabalho é conhecer pessoas, gosto de conhecer muitas pessoas e através desses movimentos que as conheço”, confessa.

A vendedora fala do prazer que tem em vender e ter contato contínuo com as pessoas, mas também das dificuldades desse contato. “Deixei de receber muitas vezes, e através desses tombos aprendi a lidar com as pessoas”,disse ela.

Outro trabalho que Vera é envolvida é da cesta básica, um pessoa principal convida outras pessoas a participar do programa, que convidam mais pessoas e essas tem que consumir o produto, que nessa empresa, é a cesta básica de alimentos. “O preço é um pouco maior, mas há um retorno do que você consumiu e a empresa divide o que ela lucrou com as vendas”, explica Vera.

Vera defende que temos que aprender a ganhar dinheiro sem ser empregados. “Estamos acostumados a ser empregados, mas existem outras alternativas para conseguir um salário, além da carteira registrada”, analisa ela que reforça que a própria pessoa pode fazer a sua aposentadoria.

Sem o apoio da família, Vera Lúcia mostra na prática que o seu trabalho tem retorno e que através dele continua ativa e continua a formar sua rede de amigos. “O contato com várias pessoas é o que mais me motiva”, comemora.

Gaspar Eduardo Paiva Pereira

Bruna Santine

Professor da PUC desde sua fundação, advogado formado no Largo São Francisco, Gaspar Eduardo Paiva Pereira dedicou-se também aos cargos de secretarias da Prefeitura. Poeta e cronista fez das palavras o caminho da sua vida.

 Gaspar nasceu em 03 de junho de 1936, o pai também da cidade de Poços, Jorge Rodrigues Pereira era comerciário, e a mãe Zilda Pereira dedicava ao lar. Vivendo o tempo todo em Poços, saiu por um pequeno período somente para cursar a faculdade de Direito.

O advogado se lembra da primeira casa em que morou na cidade, que ficava na rua Assis Figueiredo onde hoje encontra-se a Drogaria São Paulo. Logo se mudou para a casa da avó na avenida Francisco Salles. A casa ficava em frente ao terminal de Linhas Urbanas. Onde o rio ainda corria a céu aberto. “Poços era completamente diferente da que conhecemos hoje. A cidade era tranquila, não passava de 20 mil habitantes”, comenta Gaspar.

Os estudos quando criança foram iniciados na Escola 7 de Setembro, que na época também se localizava na rua Assis Figueiredo. Mudou-se para o Colégio Marista, hoje o colégio Municipal, onde ficou até mudar-se para São Paulo, onde encerrou os estudos do curso científico, o segundo grau atual.

Aos 16 anos foi para São Paulo fazer o terceiro colegial e também iniciar os estudos no Colégio Jesuíta São Luis, onde também fez o cursinho preparatório para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) do Largo São Francisco. Aos 17 já havia iniciado o curso e se dividia entre São Paulo e Poços. “Quando cheguei à cidade de São Paulo estava sendo comemorado seu quarto centenário”, lembra.

Como chegou em São Paulo muito novo cada experiência vivida na cidade foi uma surpresa, Gaspar pode acompanhar de perto a evolução da cidade grande, que contrastava com a vida pacata da pequena Poços.

Sua adolescência na cidade foi lembrada pelos grandes bailes e passeios na Praça Pedro Sanches. “Minha turma era muito unida e nas férias nos reuníamos nas praças”, diz Gaspar. Alguns lugares que o professor também se recorda e que gostava de frequentar era os ‘Castelões’, um restaurante da Praça Pedro Sanches que era muito frequentado pelos jovens da cidade. E o ‘Bar ao Ponto’ que era outro ponto de encontro.

Sobre os bailes, Gaspar ainda comenta sobre a beleza da Boate do Palace Cassino, que foi recentemente reformada, e a convivência com os turistas. “Nas temporadas, o conjunto de música ‘Fronteira e seu Conjunto’ embalavam os bailes. A boate era umas das mais belas do país”, exalta.

As missas aos domingos também fazia parte da rotina do professor, que também tinha o esporte como rotina. “Assistir aos jogos da Caldense no estádio Cristiano Osório era outra diversão dos nossos finais de semana”, completa ele.

Em São Paulo, dividia-se entre os estudos e as experiências em escritórios de advocacia. Na faculdade mais importante do país, pode participar ativamente dos principais acontecimentos da história do Brasil. “O Centro Acadêmico 11 de Agosto era responsável pelos grandes momentos do país, a política era latente dentro da faculdade”, lembra ele.

Além de possuir a maior biblioteca jurídica do país, a faculdade também trazia a Academia de Letras do Largo São Francisco, cujo o presidente era um aluno da faculdade, Dalmo de Abreu Dallare, grande professor e autor de vários livros jurídicos.

O Largo São Francisco foi a primeira escola de Direito do País, em 1827,juntamente com a de Olinda. Então Gaspar iniciou os estudos em uma instituição que carregava uma tradição que continua até hoje. “Nunca pensei que fosse estudar numa escola como aquela, até então eu não tinha noção do lugar que eu acabara de entrar e da importância daquela faculdade”, confessa Gaspar.

Conseguindo ingressar na faculdade pode conviver com professores renomados. Miguel Reale, Gofredo Silva Telles, Cezarino Junior, Gabriel  Rezende Filho, Taliba Nogueira, Almeida Junior, são alguns dos professores que Gaspar pode conviver no curso. “Muitas vezes não tínhamos noção das pessoas que eram os nossos professores”, pontua Gaspar.

A respeito dessa noção, Gaspar comenta que o distanciamento dos professores diante dos alunos, fazia parte da tradição. “Alguns subiam a cátedra, faziam seu discurso de 45 minutos e encerravam a aula”, explica Gaspar que também se tornou professor.

O professor

Depois da conclusão do curso, Gaspar volta à Poços e abre seu escritório de advocacia. “Com todas as dificuldades de quem deixa um curso de direito excelente, mas que era aprofundado na teoria e não na prática”, comenta o advogado sobre o início da carreira.

Logo nesse início o advogado recebe um convite do Monsenhor Trajano Barroco para dar aula no Pio XII, um pouco inseguro com a proposta, já que não havia dado aulas antes, e depois da insistência do Monsenhor, Gaspar passa a dar aulas de português no curso de contabilidade.

Na primeira semana pensou em desistir e só advogar, mas isso não aconteceu, tanto que completa 52 anos no papel de professor, atualmente, na PUC. No colégio Pio XII ficou por mais de 30 anos.

Posteriormente, começou a lecionar na Faculdade de Filosofia, mais uma iniciativa do Monsenhor Trajano, dando aulas de português e noções de Direito Público e Privado. Sendo o início da Autarquia Municipal de Ensino, com a faculdade de filosofia, ciências administrativas, engenharia e contábeis. A autarquia foi implantada onde hoje fica o Espaço Cultural da Urca.

Com a vinda da PUC, há 20 anos, a faculdade que foi criada pelo Monsenhor Trajano foi assumida pela universidade. “Como eu já dava aulas nessas faculdades e nas escolas da cidade, continuei na autarquia que foi transformada na universidade”, pontua.

 Para Gaspar o professor tem que impor respeito e ter o dom de transmitir a matéria. “Comecei dando aulas de português, passando por direito humanos, público e me fixei no direito constitucional. Hoje dou a Teoria da Constituição, que a base do Direito Constitucional. Hoje ainda dou português prático como aulas extra- curriculares na universidade”.

Na Prefeitura

A carreira de advogado continua paralelamente. E mais uma vocação aparece quando é convidado para trabalhar na prefeitura. “Fiquei 20 anos na prefeitura”, ressalta ele.

O primeiro cargo foi como secretário da prefeitura com o prefeito Haroldo de Onofre Junqueira. Dentro todas essas experiências, Gaspar escreveu o livro Síntese da História Administrativa de Poços, contando toda a experiência que passou nesses cargos. Sendo secretário de Administração do Prefeito Ronaldo Junqueira, e do Prefeito Sebastião Pinheiro Chagas. A última secretaria que trabalhou foi a da última gestão do Prefeito Sebastião Navarro.

Quando comecei na prefeitura o prefeito Haroldo era um excelente engenheiro e foi candidato único no período pré- revolucionário. Depois  se iniciou a época dos prefeitos nomeados pelo governador de Minas Gerais. “Os prefeitos trabalhavam e se dedicavam muito ao ofício. E ainda não havia eleições”, conta.

 O prefeito Horoldo também desenvolveu o primeiro plano integrado do município, o Plano Diretor, que foi seguido em termos.  Durante a administração do prefeito Ronaldo Junqueira a cidade comemorou seu primeiro centenário.

No segundo mandado de Ronaldo Junqueira houve um grande concerto da Sinfônica de Minas Gerais e foi inaugurado o salão Bruno Felisberti na Urca. Também neste mandado, o chafariz Eduardo Paiva, em frente a Câmara Municipal, foi inaugurado. E é neste período que é implantado o conjunto habitacional Dr. Pedro Affonso Junqueira. O Senai também foi uma realização do governo de Ronaldo Junqueira.

Passou por cargos como secretário de governo, secretário de Esportes, secretário de Administração e secretário de Educação. Mas nunca quis se candidatar a nenhum cargo público.

Conciliando a advocacia, a profissão como professor e o cargo na prefeitura, Gaspar inicia em 1964 uma participação na rádio Difusora, mais uma vez a convite de Monsenhor Trajano. “Todos os dias eu lia crônicas sobre a cidade”, fala o cronista e poeta que também era advogado da rádio. Hoje continua colaborando para a rádio completando 52 anos de participação.

A história da cidade sempre foi parte importante para Gaspar que passou a ser grande conhecedor. Mostrando os livros que escreveu, o professor fala da paixão pela escrita. “ Ao longo de todos as atividades que fiz, nunca deixei de escrever e colocava no papel o que eu vivia”, enaltece ele.

Publicou o livro de poemas ‘Ainda o Luar’, o livro sobre Poços ‘Síntese da História Administrativa de Poços de Caldas’, outro livro de poemas ‘Fluxo- Refluxo’, um livro de verso e prosa ‘Ecos do Cotidiano’ e um resumo de Direito Constitucional, matéria que leciona na PUC.

Participou de associações como Lyons Club, Sociedade São Vicente de Paula, foi orador da Associação Sul Mineira de Imprensa e da Academia Poços- caldense de Letras e vice- presidente da 25º Subseção da OAB.

Casado há 52 anos, conheceu sua esposa nos famosos bailes da cidade. A esposa de Muzambinho- MG mudou-se para Poços, formando a família de quatro filhos e oito netos. Ainda como professor, se dedica a contar a história do Brasil e de Poços, que vivenciou e ainda vivencia.

Ronaldo Silva

Bruna Santine

Ronaldo Silva herdou umas das mais tradicionais selarias da cidade de Poços. A Selaria Silva que depois, já nas mãos de Ronaldo, se tornaria referência em loja de presentes e brinquedos e acompanharia rapidamente as novidades do mercado.

A história de Ronaldo Silva acompanha a de seu pai, Francisco Silva, o Chiquinho Seleiro. Famoso pela sua habilidade em fazer selas, Chiquinho, conseguiu se consagrar no mercado fazendo selas, arreios, e confeccionando estofados e capas de charretes. 

O primeiro local onde a Selaria Silva foi instalada foi na rua Assis Figueiredo, em outubro de 1925, onde hoje encontra-se o restaurante Cantina do Araújo. “Meu pai ficou uns bons anos nesse endereço, atrás da selaria era também a primeira funerária da cidade, do meu tio Caé”, lembra o comerciante Ronaldo Silva.

Ronaldo Silva nasce em janeiro de 1930, aos 15 anos começou a ajudar o pai na selaria. “Eu ajudava meu pai em tudo, no início eu fazia uns porta- jóias, pequenos baús de couro, que eram vendidos na loja”, diz Ronaldo.

Além de fabricar as celas e arreios, Chiquinho também dava manutenção nesses materiais. “O pessoal de toda a região gostava do serviço do meu pai, ele era muito caprichoso e tinha uma freguesia muito boa”, lembra Ronaldo.

Um dos pontos fortes da loja era o Natal. Para promover ainda mais essa época a loja Selaria Silva sempre fazia alguma atividade especial. “No início meu pai trazia o Papai Noel de trem, ele chegava á antiga estação ferroviária- Fepasa e toda a cidade esperava pela vinda dele”, diz Ronaldo. Mais tarde a vinda de trem seria proibida pelo receio de que alguém se machucasse nos trilhos, já que a multidão era grande.

Com a proibição, a loja começou a trazer o Papai Noel de bondinho até a sacada do Palace Hotel, onde a população o aguardava. “Era um dos maiores acontecimentos da cidade na época do Natal, toda a cidade participava disso”, conta ele..

Mais tarde a chegada do Papai Noel seria proibida de vez. “Mesmo mudando o local, a chegada dava muita confusão, os meninos começaram a subir nos carros para ver o Papai- Noel”, diz.

Vicentino, Francisco Silva ensinou ao filho Ronaldo Silva o dever da caridade, a retribuir o que eles tinham conseguido ao longo da vida. Por isso, tanto Francisco, quanto Ronaldo sempre ajudaram a quem precisava. “Cresci vendo o meu pai sempre ajudar os amigos do comércio, os asilos e quem precisava da sua ajuda. Aos domingos, ele sempre levava a família para andar nas charretes, ele dizia que precisávamos ajudar aqueles que nos davam serviço também”, conta.

Ronaldo Silva foi criado pela bisavó, os pais de Franscisco Silva morreram eletrocutados. “Era comum ter picos de luz que você levava de um cômodo para outro, num dia de chuva, o meu avô ficou preso a esse ponto e a mulher foi tentar salvá-lo”, conta Ronaldo, a avó estava grávida. Desde então a bisavó, conhecida como Vó Chiquinha, assumiu a família.

Ronaldo morou muitos anos com a irmã do pai no sobrado da rua Assis, onde embaixo funcionava a Selaria.Ronaldo estudou no colégio Marista, a atual Escola Municipal, mas preferiu trabalhar a continuar os estudos.

 Na loja, as selas eram costuradas a mão e alguns acabamentos eram feitos a máquina, Francisco tinha alguns empregados que lhe ajudavam. O couro era comprado em São Paulo.

Chiquinho Seleiro morreu aos 78 anos deixando a loja para os filhos. Ronaldo Silva é filho do primeiro casamento, depois o pai se casou novamente e teve mais quatro filhas Cleusa, Adelina, Yolanda e Adélia.

A Selaria Silva ainda fabricou muitas selas no decorrer dos anos até iniciar a venda de calçados e brinquedos Estrela, a grande novidade da época. Nas mãos de Ronaldo Silva, após 17 anos vendendo calçados, a loja se consagraria como loja de presentes.

 Ronaldo lembra como era feito a contabilidade da loja comercial naquela época. “O caixa da loja tinha que ser feito todo de cabeça, e depois chegou a maquina de manivela. A máquina fazia as quatro operações, era um carnê que se destacava duas vias, uma do cliente e uma da loja, assim era feito o controle”, conta ele.

O casamento

Ronaldo Silva e Santina Togni se conheceram ainda pequenos na escola da Dona Zebina. “Nós estudamos juntos quando crianças, e depois nos reencontramos quando tínhamos 18 anos”, conta Ronaldo. E o encontro aconteceu na famosa avenida central, onde todos se divertiam aos finais de semana.

“A avenida que freqüentávamos ficava em frente à praça Pedro Sanches, ali os homens formavam uma fila e as moças passeavam de um lado para o outro”, diz Ronaldo. Ele se lembra que as pessoas negras não podiam freqüentar essa avenida e só podiam ficar nos jardins. “O preconceito era muito grande”, diz ele.

Em 1950 Ronaldo e Santina se casam e a festa é realizada no barracão da loja. “Minha madrasta foi quem fez todos os bolos, não me lembro ao certo quantos eram, mais eram mais de 6, uns de 4 andares. A dona Inácia Junqueira foi quem fez a decoração da festa”, lembra Ronaldo. Mais de 600 pessoas foram convidadas.

Ronaldo lembra que o pai, Chiquinho Seleiro era muito festeiro. “Sempre aconteciam bailes na casa do meu pai, minha irmã Delina, tocava sanfona, todas dançavam, era muito bom”, diz Ronaldo.

Os partos eram todos feitos em casa. “Meus quatro filhos nasceram em casa, as parteiras faziam tudo em casa. No nascimento da minha última filha, foi uma parteira nova que não admitia que homens ficassem no quarto”, conta Ronaldo, que depois precisou ajudar a parteira a realizar o parto da filha caçula, como tinha feito nos partos dos três primeiros filhos.

 O comerciante ainda lembrou que atrás da loja, havia o bar do tio José Correa. “Ele promovia lutas de boxe no bar e as pessoas iam assistir, eu nunca assisti”, fala Ronaldo.

A Selaria Silva foi fechada em 2003, mas o prédio ainda é preservado pela família.

As viagens

As viagens de trem aconteciam todo dia 1 de maio, dia do trabalhador, havia um passeio tradicional na cidade. “Todos pegavam o trem para ir até Águas da Prata, onde acontecia um piquenique, era muito gostoso, passávamos o dia lá”, conta a filha de Ronaldo, Fátima Silva.

O pai de Ronaldo Silva, Chiquinho Seleiro sempre pegava o trem, um dos únicos meios de transporte da época, para visitar parentes nas cidades vizinhas.

Além das viagens de trem por perto de Poços, Ronaldo sempre acompanhava o pai as viagens a Aparecida - SP, que aconteciam uma vez ao ano. “Meu pai era devoto de Nossa Senhora Aparecida e por isso todos os anos viajávamos até a cidade”, conta o comerciante.

Por muitos anos, os famosos viajantes levavam as mercadorias até a loja. Depois de alguns anos, Ronaldo começaria a fazer as viagens a São Paulo para comprar as mercadorias . Nessas viagens, como as compras eram feitas diretamente nas fábricas, Ronaldo pode conhecer várias delas. “Eu visitava muito a fábrica do João Faber, a Faber Castell, a Estrela, a fábrica de fornos Layr e das porcelanas Schimidt”, lembra Ronaldo.

Das mercadorias que a loja receberia as primeiras bonecas que falavam seria a grande sensação, os caminhões de madeira também eram muito vendidos. “O sapatão, aquelas botinas de roça saiam muito, e Havaianas, eram usadas somente para banho ou para ficar em casa. As alpargatas, que voltaram recentemente, também vendiam muito”, diz Ronaldo.

A cidade

Depois de alguns anos vivendo na rua Ceará, Ronaldo se mudaria para a rua Piauí e veria de perto a construção da Santa Casa. “No início dos anos 60 a Santa Casa era construída, era perto da minha casa e eu me lembro do prédio sendo construído”, relembra Ronaldo.

Ronaldo também lembra da primeira televisão que teve em casa. “Antes só víamos TVs em São Paulo, e o rádio era o maior companheiro de todos, sentávamos na sala para escutá-lo, depois chegaria a TV em preto e branco, e também nos reuniríamos em volta dela”, diz ele.

  Quando solteiro, Ronaldo lembra  dos cassinos que tinham grandes atrações e bailes.O Palace Cassino era utilizado para carnavais, bailes de máscara e eventos da cidade.

Ronaldo conta dos grandes teatros da época. “O Politeama era o único teatro de Poços e eu vi meu primeiro filme lá”, conta Ronaldo Silva. O teatro Politeama ficava na rua Francisco Salles, ao lado do atual prédio da prefeitura e sua estrutura assemelhava-se ao atual projeto arquitetônico do teatro de Manaus- AM.

 Além do teatro, Ronaldo também fala da construção da Basílica Nossa Senhora da Saúde, a Matriz, que teve a colaboração de toda a cidade. “Minha bisavó juntava seu dinheiro e sempre dava uma quantia para ajudar na construção do prédio da igreja”, lembra ele.

Aos 87 anos Ronaldo Silva ainda é lembrado nas ruas pelos quase 60 anos de trabalho na Selaria Silva, conserva o dom caridoso do pai e continua a ajudar a quem precisa.

Eulei Gomes Negrão

Bruna Santine

Poços-caldense, Eulei Gomes Negrão se apoiou no esporte para enfrentar a realidade de crescer sem os pais. Representou a cidade em muitas competições como atleta, teve alguns empregos até se encontrar na profissão de catador de material reciclável, através da profissão, conquistou amigos e ensinou a população sobre a reciclagem.

Ao se lembrar da infância, Eulei fala do pai José Gomes Negrão, empreiteiro, que possuía várias casas de aluguel. “Morávamos no bairro Cascatinha, éramos três filhos e me lembro do meu pai trabalhar muito”, completa falando da rua do Zé Agachado, hoje é denominada José Piffer.

Eulei comenta sobre a profissão do pai que tinha grande fama na cidade. “Ele construiu a matriz Nossa Senhora da Saúde no início de 1950, foi ele quem colocou a cruz da igreja, mas o acabamento ainda não tinha sido feito”, explica ele.

Mas o que mais o marcou a infância do catador foi uma tragédia familiar. A mãe de Eulei e seu amante planejaram o assassinato do pai Zé Negrão, o Zeca, para que pudessem ficar com as casas de aluguel que a família possuía. Em dezembro de 1950, com 10 anos de idade, Eulei perde o pai. A própria mãe e o amante matam o pai de Eulei a machadadas. Nesse momento ele e os irmãos vão morar com a avó paterna e nessa confusão ficam sem as propriedades do pai. “Minha avó também não tinha condições, a partir disso precisávamos nos virar para ajudá-la”, confessa.

No dia do assassinato, Eulei lembra que o pai havia passado na padaria e comprado coisas que eles gostavam. A tragédia aconteceu no início da madrugada e pela manhã ainda viu as roscas e quitutes da padaria. O amante da mãe atingiu o pai com 21 facadas.  A tragédia desestruturou toda a família, órfãos de pai e com a mãe na cadeia, os meninos precisaram seguir em frente.

A mãe foi presa na cadeia da cidade que ficava na rua Pernambuco, ameaçada pela população, a mãe foi transferida para a cidade mineira de Muzambinho. Depois do fato, o avô materno muda-se para o  estado do Paraná, para onde a mãe foi quando saiu da cadeia. Anos depois, a mãe voltou para Poços e Eulei ainda cuidou dela, a mãe morreu aos 93 anos no ano de 2016.

Antes da morte do pai, Eulei estudava na escola Sociedade Italiana que ficava no alto da rua Assis Figueiredo, perto do cruzamento com a rua Expedicionários, como o ensino era somente o primário, depois dos 10 anos, Eulei foi transferido para o colégio David Campista, onde terminou os estudos.

Aos 14 anos, Eulei começa a trabalhar como engraxate. “Lembro de uma frase do Pelé dizendo que poderia ser um simples engraxate que abraçaria a profissão e faria o seu melhor. Isso me marcou e fiz o melhor na minha profissão”, reforça o fã do jogador.

Aos 18 anos Eulei também trabalhava nas temporadas do Hotel Quisisana como garçom. “Esse hotel foi o pai da pobreza de Poços”, pontua ele. Além disso, trabalhou também como pintor. Nesses trabalhos, surgiu também a profissão de pescador nos rios que cortavam a cidade. “Esses rios da cidade eram limpos, pescávamos e vendíamos no restaurante Castelões. O rio era mais fundo, pegávamos cascudo. Em tempos de chuvas caçávamos rãs e vendíamos também”, enaltece.

O esporte

Desde pequeno o aposentado gostava de jogar bola. Aos 15 anos começa a jogar pela Caldense. Até os 20 anos Eulei dividia-se entre o trabalho no hotel e o futebol, mas é nesse período que descobre a corrida. Até os 25 anos participou de várias corridas na cidade e acumulou vitórias, era conhecido pelos jornalistas esportivos.

Dos tempos de corrida seu Eulei se recorda do famoso repórter da rádio Cultura, Francisco Antônio, o Chico Formoso, que hoje é advogado. Eulei ainda fala da localização da rádio Cultura, o prédio ficava quase na esquina da rua Junqueiras com a rua Assis Figueiredo.

O percurso da corrida iniciava-se na rádio Cultura, subia  a rua Assis em direção a Casa Carneiro, onde antigamente, encontrava-se o Mercado Municipal e seguia até a Prefeitura chegando ao prédio Bauxita. Esse percurso era feito cinco vezes pelos atletas e Eulei foi considerado o melhor da época. “O Chico Formoso me anunciava na rádio como o melhor corredor de Poços, eu ganhava todas as corridas que havia na cidade”, orgulha-se o então corredor.

Correndo profissionalmente e contratado pela Associação Atlética Caldense, o então corredor lembra-se de um médico muito importante em sua carreira. Doutor Antônio Megali, presidente e médico da Caldense. “Ele foi um pai para mim e consegui corridas em Belo Horizonte, na cidade e estado de São Paulo”, relembra ele sobre as vitórias que teve pelo clube. Em Ribeirão Preto- SP, Eulei batia os recordes da corrida.

Já em São Paulo, na São Silvestre, Eulei ficou na 151o posição concorrendo com três mil atletas. “Naquela época só participava os atletas mesmos, e eu sai no último pelotão, mas enjoei de passar gente. No próximo ano, quando eu saíria no primeiro pelotão, não consegui verba para participar”, lamenta ele.

Eulei ainda reforça que não era o melhor, mas o mais preparado, porque levava a sério o esporte. Em razão da dedicação, em 1965, Eulei é contrato para correr pelo Atlético Mineiro e muda-se para Belo Horizonte. Na capital mineira fica por três anos e em 1968 retorna para Poços para se casar.

“Devo tudo o que eu sou ao esporte, foi onde aprendi a viver, por não ter meus pais, aprendi a conviver com as pessoas e viajar. O esporte ensinava que quem quisesse seguir carreira deveria ter uma vida regrada, sem bebida, sem fumar, sem dormir tarde e precisava se alimentar bem”, declara.

Se dedicou a corrida até os 28 anos. Como namorava, Eulei retornou a cidade para se casar em 22 de junho de 1968. Depois de casado, começou a trabalhar na Casa Carneiro na parte de manutenção e pintura, no estabelecimento comercial trabalharia até a sua aposentadoria.

A reciclagem

Após a aposentadoria, Eulei se arrepende de parar de trabalhar e tenta se recolocar no mercado novamente. Depois de muitas tentativas, aos 50 anos, encontra dificuldade em ser aceito pelo mercado. Diante da dificuldade, Eulei lembra-se de uma antiga conversa com o ex- patrão, Hélio Carneiro.

“Hélio foi outra pai para mim, quando eu ainda trabalhava na Casa Carneiro, ele comentou que tinha vontade de trabalhar com a reciclagem, que o nosso lixo era muito rico. Depois das tentativas de emprego, eu me lembrei disso e decidi que iria trabalhar com a reciclagem”, exalta o catador.

No início, o aposentado trabalhava com uma bicicleta e um pequeno carrinho. “Eu comecei e gostei, porque eu recolhia o material, levava para a pesagem e já recebia, isso me motivou a trabalhar cada vez mais”, conta o catador. Depois, esse pequeno carrinho não foi mais suficiente.

Diante disso, Eulei fica sabendo de uma pessoa que queria vender um carrinho de suporte para barcos, e tenta negociar, mas um amigo o faria uma surpresa. Ivo da Translar seria mais um pai encontrado no caminho do catador. “O Ivo me falou sobre o carrinho e me levou para ver, alguns dias depois, ele disse que o moço tinha dado o carrinho, mas acredito que ele, Ivo, que comprou e me deu”, brinca ele. Depois de algumas adaptações o carrinho estaria pronto para receber mais material reciclável.

O percurso permanece o mesmo desde quando o catador começou o trabalho. Como mora na Vila Cruz, Eulei parte do bairro pela Avenida João Pinheiro, hoje já tem os amigos comerciantes que o aguardam. “Esse caminho é abençoado e muito rico”, coincidência ou não, o catador faz quase o mesmo percurso que fazia em suas corridas pela cidade. Passa pela rua Rio Grande do Sul, Francisco Salles, pela Prefeitura e volta novamente pela avenida João Pinheiro para o bairro onde mora.

Eulei comenta das dificuldades encontradas no começo da carreira quando as pessoas não gostavam de ver outras pessoas mexendo no lixo. “Com muita educação, que aprendi com o esporte, eu consegui convencer as pessoas que aquilo era o meu trabalho e que faria da melhor maneira possível”, explica o catador.

“Sou apaixonado por esse trabalho, isso faz parte da minha saúde, percorro 20 km por dia, faz parte das minhas amizades e consegui sustentar a minha família”, conta ele sobre a paixão pela profissão e relembra a fala do jogador Pelé não sai de sua cabeça.

Há 10 anos Eulei ajudou a fundar uma cooperativa de reciclagem, a Ação Reciclar. Mesmo com o carrinho adaptado, seu Eulei não consegue recolher todo o material e assim direciona para outras pessoas e para a cooperativa que ajudou a fundar, onde  trabalhou por dois anos, mas depois preferiu voltar às ruas.

Atualmente o catador faz parte da Associação Recriando, associação de catadores de materiais recicláveis de Poços de Caldas e depois de 10 anos eles têm esperança de ter a profissão reconhecida.

O catador fala que se soubesse do sucesso que teria na profissão teria começado antes quando era mais novo e tinha mais saúde.  Hoje ele comemora os muitos amigos feitos durante esses quase 30 anos trabalhados nas ruas de Poços. “Quanto mais se vive, mais se aprende e morremos sem saber nada”, filosofa o catador.

A amiga Fiel, cachorrinha que o acompanha no trabalho diário, chegou na vida de Eulei há 12 anos, ele a encontrou nas ruas do bairro onde mora. “Um dia passei na padaria e comprei um pão com mortadela, no caminho encontrei essa cachorrinha e dei um pedaço para ela, depois disso ela não saiu mais de perto de mim”, brinca.

Depois de procurar pelo bairro, o catador descobriu que a Pretinha, como ele também a chama, havia sido abandonada pelos antigos donos que tinham mudado da casa onde moravam. Com alguns meses, a cachorrinha foi adotada por Eulei e a partir desse momento começou a acompanhá-lo no seu trabalho. “Como ela está mais velhinha ela não consegue me acompanhar em todo o trajeto, então eu fiz um suporte para que ela pudesse ir deitada”, explica.

A cachorrinha chamada por Pretinha pelo catador ganhou outros nomes pelos amigos que encontrou no caminho. “Muitos chamam ela por Poderosa, Fiel  é por conta da torcida do Corinthians e depois acabou tendo outro significado porque ela sempre está perto de mim”, confessa.

Casado e pai de um casal, ajuda a esposa adoentada, com um bisneto, aos 77 anos quase completados, não pensa mais em aposentadoria. Faz seu trabalho com amor, em suas palavras só agradece a população da cidade e os caminhos que o esporte o levaram a traçar.

Júlio Cesar Amorim - Brigadeiro

Bruna Santine

O entrevistado dessa semana já é considerado patrimônio da cidade. Há mais de 20 anos na cidade, fez do seu trabalho um símbolo de Poços. Com o casamento com a esposa Ana Cristina Pires juntou o dom da cozinheira com o dom das vendas e juntos construíram a família. Júlio Cesar Amorim, mais conhecido como o Brigadeiro, percorre as ruas centrais da cidade anunciando seu produto e nos conta como foi sua história construída através dos doces.

Nasceu em Três Corações- MG, Poços foi a oitava cidade em que o vendedor se estabeleceu. Passando pelas cidades mineiras de Itajubá, Uberaba, Três Pontas, Varginha e a cidade do interior de São Paulo- Franca. Em 1995 muda-se definitivamente para Poços de Caldas, por intermédio da irmã, que já tinha se mudado para a cidade do sul de Minas. Júlio César consegue um emprego de vigilante. Casou-se aos 19 com a esposa Ana Cristina Pires que tinha 17.

Com o início do novo emprego traz a esposa e a filha. A ideia da venda dos doces começou na cidade de Franca, interior do estado de São Paulo, a esposa propôs que o marido vendesse o que ela produzisse. “Ana Cristina viu uma senhora que também vendia doces e percebeu que também poderíamos viver daquelas vendas, eu estava desempregado e com 23 anos”, explica o vendedor.

Os doces sempre foram produzidos pela esposa, e mesmo com o trabalho de vigilante em Poços, Brigadeiro continuou a vendê-los. “Eu trabalhava das seis da tarde as seis da manhã, pela manhã chegava em casa e descansava, por volta do meio dia eu saia para vender os doces até o horário de  entrar no emprego novamente”, específica Brigadeiro.

Com os bons resultados da venda dos doces, Júlio Cesar continua no trabalho de vigilante por mais seis meses. “O salário de vigilante começou a defasar e eu comecei a ganhar mais com os doces do que com o trabalho com carteira assinada”, diz o vendedor que começaria sua dedicação total as vendas.

O início das vendas foi de maneira simples, a coragem e a necessidade incentivaram Júlio César a continuar. “No começo eu levava os doces em uma forma de alumínio e cobria com um pano de prato, assim eu saí pelas ruas vendendo meu produto”, conta ele.

A qualidade dos doces e o carisma de Júlio César formaram o casamento perfeito. Percorrendo as ruas centrais de Poços ele chamava atenção dos clientes ao gritar as ofertas de brigadeiros e beijinhos, e por isso, ficou conhecido como Brigadeiro.

O sucesso é conquistado do trabalho de segunda a segunda. Feriado e datas comemorativas são dias em que o vendedor trabalha mais. “Quando comecei a me dedicar exclusivamente às vendas, às 7 horas estava nas ruas e voltava para casa só depois das 22 horas”, relata o vendedor.

Hoje toda a produção feita pela esposa é vendida no dia. O que antes sobrava, hoje é procurado. O aperfeiçoamento do armazenamento dos doces foi uma secada que alavancou as vendas. “Os doces são vendidos em potinhos pequenos ou maiores, fechados, contribuindo para a conservação e higiene dos doces”, explica Brigadeiro.

Depois de 18 anos morando de aluguel, Brigadeiro comemora a conquista da casa própria. “Morei em muitos lugares na cidade, hoje tenho minha casa, meu carro, criei meus filhos e ajudo com os netos”, enaltece.

Com os doces criou os dois filhos que estudaram e hoje estão empregados, como ele e a esposa sempre deram conta do trabalho, nunca precisaram da ajuda dos filhos e puderam proporcionar o que não tiveram a eles. “Meus filhos têm empregos bons e formam suas famílias, minha filha já tem um casal de filhos e meu filho namora”, conta orgulhoso.

Ao lado da neta que o auxilia nas respostas e com o neto mais novo no colo, Júlio César fala da alegria de ser um avô jovem. “Eu e minha esposa fomos avós muito cedo, tenho 46 anos e uma neta de 10 anos, mas gosto, assim posso curtir mais as crianças”, fala ele.

Além do trabalho nas ruas centrais de Poços, há mais ou menos três anos, Brigadeiro comenta que chegou a vender os doces também na estrada, quando houve grandes obras nas estradas perto de Poços. “Eu fui de carona para esses trechos que ficavam paralisados por causa das obras, percorri mais de 20 cidades”, relata.

Pra enfrentar o sol e a chuva Brigadeiro também é conhecido por usar o guarda-chuva, instrumento necessário nos dias muito quentes ou chuvosos. As férias, como funcionário autônomo, não existem. “As contas não param, então não posso parar também”, desabafa.

A rotina da esposa Ana Cristina também é puxada, produção é diária, cerca de cem doces são feitos e vendidos por dia. Brigadeiro, beijinho, casadinho e moranguinho são os doces tradicionais vendidos por eles. Além das vendas, eles também fazem encomendas para festas. O talento na cozinha da esposa levou Brigadeiro a vender também salgados e outros doces como curau, bananada e arroz doce.

A última empreitada da família foi a venda de pizzas, mais uma vez, com a habilidade da esposa, as massas eram todas caseiras e com o carisma de Brigadeiro eram divulgadas. Mostrando o forno de assar as pizzas, ele fala como as vendas foram surpreendentes. “Em menos de três meses vendemos mais de 600 pizzas, a ideia era vender somente nas proximidades do bairro onde moro, mas de repente estávamos recebendo ligações de bairros do outro lado da cidade”, brinca ele.

Com a crise e o aumento do preço dos ingredientes a produção precisou ser parada.  Em 1997, Brigadeiro chegou a ter seu próprio comércio no bairro São Jorge. O Restaurante e bar do Brigadeiro ficou famoso pela feijoada aos sábados. “Mesmo sendo um local simples, atraia pessoas que tinham um maior poder aquisitivo”, nesse lugar o então comerciante ficou durante um ano.

Poços há 22 anos

Brigadeiro recorda que quando chegou à cidade ele era o único vendedor que percorria as ruas. “Desde que eu cheguei o número de vendedores na rua aumentou muito, alguns se inspiraram em mim, outros não conseguiram continuar”, comenta o vendedor que permanece há 22 anos nas ruas.

Desconhecido na cidade, Brigadeiro conta que muitos policiais desconfiavam do trabalho dele. “Como eu era muito novo, o pessoal não acreditava que eu vivia da venda somente dos doces, achavam que tinha alguma coisa por trás”, brinca ele. Mas com o passar do tempo, ele conquistou a confiança dos policiais.

Essa conquista fez diferença para Brigadeiro porque seu pai também era policial e tinha o sonho de trabalhar e morar na cidade. “Ele ficou adoentado e morou comigo aqui em Poços, mas logo faleceu”, lamenta o vendedor. O pai, Sebastião Antônio Amorim, trabalhou por muitos anos na polícia e percorreu mais de 20 cidades por conta do serviço, quando faleceu tinha mais de 28 anos de carreira. Faleceu aos 54 anos ainda na ativa.

Júlio Cesar, o Brigadeiro, menciona alguns nomes da polícia como o Doutor Laci e Doutor Faria, homens que trabalharam com o pai e ingressaram em 1975, mesmo ano em que o pai também começou como policial. “Meu pai não conseguiu trabalhar em Poços, mas viveu seus últimos momentos na cidade e realizou o sonho de morar aqui”, emociona-se.

Júlio fala da zona azul em que crianças da guarda-mirim trabalhavam. “Antes os menores trabalhavam com essa responsabilidade, com essa nova administração e as novas leis, somente maiores de 18 anos podem trabalhar na zona azul”, reforça o vendedor que tem como clientes essas crianças, agora adultos.

Brigadeiro ainda comenta sobre o crescimento da cidade, ele observa que quando mudou para Poços a cidade tinha pouco mais de 100 bairros e atualmente esse número subiu para o dobro. Recorda também de lojas antigas que ficavam no centro. “As lojas Arapuã, Casa do Boi, os bancos Unibanco, Benge, são lembranças das minhas andanças pela cidade”, fala ele.

Desse universo bancário Brigadeiro se lembra de um cliente que depois ficaria muito famoso. “O Caixeiro do Riso ainda era o Giovani funcionário do banco quando eu o conheci e já era meu cliente, ele trabalhava no banco Mercantil de São Paulo”, conta ele animado.

Restaurantes como o Fenícia e o Pingão também foram lembrados. “Eu vendia muitos doces nesses lugares, os proprietários também compravam de mim, hoje os filhos desses comerciantes são todos empresários e meus clientes também”, menciona ele.

Onde hoje funciona a Cucina Francesco, na rua Prefeito Chagas, Brigadeiro lembra da loja Mercadão dos Lustres do proprietário Paulinho Miguel. “Vários comércios passaram por esse local, inclusive um bingo que atraia muitos turistas”, lembra ele.

Dessa convivência com as pessoas nas ruas, Brigadeiro fala do senhor Jair da empresa de ônibus Circullare, funcionário antigo da empresa que muitas vezes chamava a sua atenção. “Lembro muito do seu Jair, principalmente porque eu vendia meus doces no terminal de ônibus e ele me alertava que não podia. Mas ele era meu freguês também e muito respeitado”, explica ele.

Logo depois de um ano da sua chegada à cidade, em 1996, Júlio César é procurado para fazer campanhas de políticos, nesse momento, sua visibilidade na cidade era tamanha que ele se tornou um ótimo garoto propaganda eleitoral. “Fiz campanha para o Paulo Tadeu, Doutor Mosconi, Paulinho Courominas e Sebastião Navarro”, elenca ele e fala sobre o abandono depois da vitória dos candidatos.

Candidatou-se duas vezes a vereador. Em 2000 ocorreu a primeira eleição, ele teve mais de 500 votos, na de 2008, os votos foram menores. “A política é difícil, entra-se para ganhar ou perder, a minha fama serviu para ajudar a legenda”, confessa ele.

Uma conquista de um ex- prefeito da cidade também é exaltada por Brigadeiro. “O Paulinho Courominas foi quem trouxe o restaurante popular para Poços, sem isso eu não poderia pagar por uma refeição saudável e continuar meu trabalho na rua”, fala ele sobre a dificuldade de ter esse restaurante quando Poços não tinha população suficiente para isso.

A diversidade de clientes também é um fator que chama a atenção de Brigadeiro. “Tenho clientes de todas as classes sociais, pessoas importantes na cidade são meus clientes fieis, através do meu serviço conheço todos da cidade, dos mais podres aos ricos, todos são meus clientes”, comemora ele.

Mesmo em outras cidades Brigadeiro é reconhecido. “Uma vez fui para a cidade de Aparecida do Norte e no meio da multidão escutei alguém gritar – Brigadeiro!-  era um morador de Poços que tinha me reconhecido lá”, brinca o vendedor.

O clima da cidade é uma paixão do vendedor. “Como ando o dia todo, sem um trajeto planejado, o clima mais ameno de Poços ajuda no meu trabalho”, fala ele que lembra que nos últimos anos viu a temperatura da cidade também aumentar e enfrentar dias de calor.

Depois de 22 anos de trabalho na cidade a fama do vendedor é grande, conhecido por toda a população, ele também conquistas turistas que frequentam a cidade e também de fora do país. Aos 46 anos pai de um casal e avô de mais um casal, ele comemora suas conquistas, mas ainda sonha em ter o próprio negócio.

O respeito e o carinho dos moradores de Poços foram conquistados, humilde e honestamente, pelo trabalho. “Quando a pessoa esta trabalhando Deus abençoa. Poços é uma cidade muito boa, por isso que muitos turistas mudam para a cidade”, finaliza o vendedor que tinha o sonho de morar na cidade do requeijão Poços de Caldas e aqui adoçou a vida dos moradores e a sua própria.

Vilmar Garcia

Bruna Santine

O entrevistado dessa semana sempre gostou das estradas e foi nelas que fez os seus caminhos. Passando pelas profissões de cobrador, motorista, caminhoneiro, ajudante de circos e parques, agente funerário e locutor, se realizou como proprietário da Garcia Turismo, que em seu auge teve mais de 30 ônibus. Mas a vida pediu mais tempo e por isso resolveu diminuir o ritmo de trabalho, nunca deixando suas duas paixões, a estrada e os programas da rádio.

Nascido em Poços de Caldas em 4 de novembro de 1952,  Vilmar Garcia nasceu na rua Piauí no Largo da Independência, onde hoje localiza-se o Hospital Santa Casa. Ele tinha poucos meses quando a família se mudou para o bairro Jardim dos Estados.

Sobre o bairro, Vilmar conta sobre uma lembrança marcante. “Me lembro muito da casa do Doutor Sebastião Pinheiro Chagas, na rua Comendador  João Afonso Junqueira e o lar de Irmã Catarina na rua Corumbá, uma creche que ainda existe”, recorda ele.

O caçula de sete irmãos estudou no Grupo Escolar Francisco Escobar, que ficava no prédio onde hoje se encontra a delegacia de Poços, e na escola Regina da Gama Salgado. Com a morte precoce do pai, começou a trabalhar quando tinha apenas nove anos. “Minha mãe fazia salgados e eu vendia pelas ruas da cidade”, comenta ele que conseguiu estudar até os 14 anos.

 O pai era jornaleiro e trabalhou durante 48 anos nos correios. Vilmar fala de algumas vezes que acompanhava o pai nas andanças pela cidade. “O bairro da Vila Cruz chegava até a rua Afonso Pena, aquela pequena rua perto da igreja evangélica Congregação do Brasil. Vila Nova era o bairro do Charque, que hoje é o Dom Bosco, e  havia o bairro São José, todos com suas ruas de terras, moradores conhecidos e o transporte a cavalo”, específica o empresário.

Nessa época as pessoas das fazendas ao redor frequentavam Poços e alguns pontos eram preferidos. Era comum após os casamentos na roça o pessoal chegar de caminhão na cidade para comemorar.  “Todos iam para o bar Alaska, na rua Assis Figueiredo, bar que  por muitos anos foi conhecido pelo seu famoso sorvete. A dona Anita, dona do local, é viva até hoje. Foi um lugar muito importante para a cidade”, reforça Vilmar.

O Fantozzi Hotel é outro local tradicional da cidade que Vilmar ainda frequenta. “Almocei esses dias no hotel, é um dos mais antigos da cidade”.  Outro hotel lembrado foi o Grande Hotel que era perto da prefeitura e trazia os famosos carteados da época.

O primeiro registro em carteira foi na Empresa Circullare, onde começou a trabalhar como cobrador aos 12 anos. “Fui registrado com a carteira do menor e por lá fiquei por muitos anos, depois passei a trabalhar como motorista”, completa. Aos 19 anos saiu da empresa para se aventurar nas estradas do país, como caminhoneiro, Vilmar conta que só não conheceu a capital do Amazonas.

“Tenho vontade e ainda vou conhecer Manaus, andei o país todo. Pegava viagens longas de até 40 dias na estrada”, fala ele que rodou as estradas por quatro anos. O então motorista conta que a maioria dos fretes ia até Belém do Pará, depois disso, ele voltava. Nesse ritmo, os dois filhos são criados pela esposa enquanto ele percorre o Brasil.

Ele lembra de um dos funcionários mais antigos da empresa, Jair Saraiva, que trabalhou na empresa por 50 anos, e dos antigos donos que eram três irmãos: Américo, Álvaro e Aquino Frison. A garagem ficava na rua Prefeito Chagas onde hoje é a galeria Kyoto. “Eram apenas seis linhas que percorriam toda a cidade e saiam ali da garagem”, completa ele.

Em 1985, trabalhando na Viação Cometa, compra seu primeiro meio ônibus. Em sociedade com o amigo Rovilson Mucciaroni, eles começam os primeiros passos da empresa de Turismo Garcia. Após a compra do terceiro caminhão, em 1987, a sociedade se desfaz e Vilmar continua com o negócio. “Cheguei aos 35 ônibus, fazia viagens, fretamento de fábricas e escolas. Foi nessa época que fiquei doente e precisei diminuir o ritmo de trabalho”, confessa Vilmar.

Para chegar os 35 ônibus Vilmar conta que começou a trabalhar com uma usina na cidade de Areado e com isso buscava cortadores de cana e apanhadores de café no norte de Minas Gerais e Bahia, e também no Paraná. “Tudo era financiado, não tínhamos capital de giro, eram vários carnês para pagar”, conta Vilmar que fala da sua primeira garagem que ficava na rua Campestre, ao lado do atual restaurante Pampa.

Atualmente é proprietário da Empala Turismo e a Garcia Turismo, tem uma frota de 12 ônibus e trabalha somente com a prefeitura.  A empresa fica na saída para Caldas. Através de licitações, entrou pela primeira vez no serviço com a prefeitura no governo de Sebastião Navarro. “Melhor época para mim foi com a administração de Sebastião Navarro”, exalta ele. 

Outros trabalhos e o encontro com a esposa

Em certo período Vilmar ficou desempregado e a passagem de um circo na cidade foi a oportunidade de um emprego.  Aos 15 anos foi trabalhar como peão de circo, ajudava a montar, trabalhava na bilheteria e como figurante nos teatros. “Foi quando me encontrei pela primeira vez como locutor, um dia o apresentador do circo faltou e eu precisei substituí-lo, a partir desse momento, comecei a fazer as chamadas de carro também”, aponta Vilmar. Vilmar passou pelos Circos Teatros Índio Brasil, Bibi e Grande Circo Norte Africano. Depois dessas aventuras, aos 17 anos, começou a trabalhar no Parque de Diversões Universos, que também passava por Poços, e através da locução no Parque, sua voz atraiu a esposa. “Ela escutava a minha voz ao anunciar as atrações do parque e, curiosa, foi atrás de mim”, enaltece o locutor.

Outro parque que fez parte da sua trajetória foi o Parque Guarani que ficava na Festa São Benedito. Foi no estúdio ‘Cacique do Ar’ que Vilmar embalou muitos casais. “Eu era locutor da festa São Benedito e os correios elegantes eram o auge da festa, muitos casais começaram a namorar ali”, orgulha-se Vilmar.

O estúdio ‘Serviço de Alto Falante Cacique do Ar’ era de madeira e tinha como diretor o senhor Wilson Marcondes. “As pessoas me falam até hoje que se lembram de mim na festa. Vários casais me falam do início do namoro na festa, hoje estão casados e com netos”, exalta o locutor. A voz de Vilmar ficou famosa e virou símbolo da festa. “Os alto falantes da época alcançavam quase toda a cidade”, fala o locutor que trabalhou na festa por 15 anos.

Trabalhou também como guarda do banco União Comercial, que mais tarde faria parte do grupo Unibanco, na rua Rio de Janeiro, hoje o prédio abriga o HSBC. Após esses empregos a profissão como caminhoneiro começa. “Depois de alguns anos volto a trabalhar, de 1972 a 1985, como motorista de ônibus nas empresas Viação Gardênia, Santa Cruz até me aposentar na Viação Cometa”, elenca o motorista.

Além de todas essas áreas, depois do emprego de caminhoneiro, Vilmar ainda trabalha na primeira empresa funerária de Poços, Funerária Caé, na rua Minas Gerais, o qual o proprietário era filho de Gabriel Rodrigues, o primeiro proprietário de funerária da cidade que ficava no prédio onde hoje encontra-se o Restaurante Cantina do Araújo. “A primeira viagem como agente funerário foi para a cidade de Marília, o cheiro de flor era estranho no início, mas viajei para o Mato Grosso e outros estados para levar os corpos de acidentes”, conta ele.

Na época tinham três funerárias em Poços, a São Lázaro, Caé e São Luiz. Outra curiosidade era que o caixão era confeccionado também pelas pessoas que trabalhavam na funerária. Após essas experiências, Vilmar monta sua própria funerária em Pouso Alegre, chamada São Gabriel. “Por causa do perigo da estrada Fernão Dia, toda sexta-feira enchíamos os carros e já ficávamos preparados, porque ocorriam muitos acidentes no final de semana”, recorda.

De todos os acidentes que presenciou, Vilmar fala de um entre um ônibus da Transmoreira e um carro Alfa Romeo que vitimou fatalmente nove pessoas no local, desses, dois foram levados por Vilmar para o estado do Mato Grosso. “Saí às 17 horas, viajei a noite inteira com os corpos e cheguei no outro dia cedo”, conta o agente sobre a viajem exaustiva.

Outra curiosidade é que naquela época era a funerária que buscava os corpos nas estradas quando ocorria um acidente. “Em alguns acidentes chegávamos antes da polícia, ás vezes, encontrávamos os corpos em pedaços. Esse trabalho me fez valorizar a vida”, analisa.

Vilmar ainda comenta que em Poços as funerárias foram fechadas pelas brigas que a concorrência provocava. “O prefeito José Aurélio Vilela fechou as três funerárias e abriu a funerária municipal, hoje não se autoriza a abertura de funerárias particulares”, reforça ele que lembra que esse prefeito foi quem fez a Marechal Deodoro.

Além dos acidentes em estradas, Vilmar fala dos muitos afogamentos que ocorriam no Véu das Noivas e na Represa Bortolan. “Os bombeiros vieram para a cidade em 1972, antes disso, nós amarrávamos um corda na cintura e ajudávamos a procurar os corpos junto com os familiares e civis que se voluntariavam”, relembra Vilmar ainda da época de agente funerário.

Há 43 anos casado, com dois filhos e três netos teve a esposa como companheira em todas as aventuras desde as viagens com o caminhão até o apoio na empresa. Casou-se em 1972 no dia de seu aniversário, aos 20 anos.

A doença

Aos 50 anos, depois de um exame de vista rotineiro para renovação da carta de motorista, Vilmar é reprovado por não conseguir enxergar direito. Na consulta com um oftalmologista descobre um tumor na cabeça que começou a tampar a visão. “Era um tumor grande e logo tive que fazer a operação para a retirada, correu tudo bem, a recuperação foi excelente, mas tive que diminuir meu ritmo de trabalho”, explica ele.

Após 11 meses da primeira cirurgia Vilmar teve que passar por mais um procedimento para retirar alguns resíduos que tinham ficado do tumor. “Fiz novamente a cirurgia e me recuperei novamente, foi um milagre, não tenho nenhuma cicatriz ou sequela, sou um homem ressuscitado”, comemora o empresário. A fé foi o que o motivou a continuar e acreditar que tudo correria bem. “A pessoa não pode desanimar da vida e só a fé e a confiança em Deus que nos da essa força”, exalta ele.

O rádio

Em 27 de março de 1981, um anúncio em uma loja da cidade, a Casa para Todos, despertou a vontade de trabalhar em uma emissora de rádio, a vaga era para Locutor na Rádio Difusora AM. Fez o teste. Na mesma época apareceu a vaga na viação Cometa. Vilmar conciliou as duas profissões. Quando chegava de viagem fazia o programa ao vivo, quando estava viajando, deixava gravado.

O primeiro programa foi o Crepúsculo Sertanejo, das 17h às 19h. Logo depois apresentou o Silêncio da Noite, com músicas da Jovem Guarda, das 11h à meia noite. E depois das 22h a 1h ‘Tangos e Boleros dentro da noite’, nesse programa, Vilmar muitas vezes chegava de viagem e já ia direto para o estúdio da rádio.

Fazia muitas transmissões externas, como Festa Uai, 7 de Setembro e muitos carnavais em lugares como Palace Cassino, Caldense e  Jovens Unidos Para um Amanhã Melhor- JUPAM, evento que acontecia no bairro Vila Cruz.

Há 36 anos na rádio Difusora- AM,  passou pelas administrações do Monsenhor Trajano Barraco, Padre Romeu Miranda, deputado Milton Reis e, finalmente, o Riachinho deixando para os filhos, atuais donos. “O padre Romeu eu testemunhei, como morador do Jardim dos Estados, ele carregando as pedras para fazer a igreja São Judas”, diz o locutor sobre os padres arrojados que a cidade teve.

Atualmente Vilmar tem o programa ‘A Volta do Sucesso’, transmitido às 10 h, com músicas de Roberto Carlos, Erasmo e Jerry Adriane. “São músicas antigas que fizeram muito sucesso, e que precisam ser lembradas” , fala o apresentador que está há 16 anos com o programa.

Nesses anos aprendeu as técnicas e menciona como a locução de rádio era exigente. “Havia muitas técnicas de dicção e havia muita censura também, não podíamos brincar com qualquer coisa que levávamos advertência”, complementa ele.


Lúcia Vera de Lima

Bruna Santine

Nossa entrevistada dessa semana é militante da causa negra, começou sua relação com a própria raça na adolescência e fez da arte o caminho para conhecer a si mesmo. Lúcia Vera de Lima é a atual presidente da instituição Chico Rei e da Associação Recriando. Estudante de pedagogia tem como foco de trabalho apresentar a cultura afro, e agora, as preocupações com o meio ambiente, às crianças da cidade.

Nasci em Poços 20 de setembro de 1960 no centro da cidade, na região do córrego Vai e Volta. Morou sempre região, mudando-se para perto da rua Capitão Affonso Junqueira, onde tinha poucas casas e característica de um centro acanhado. Depois, o pai compraria uma casa bem perto da mina d’água do Monjolinho.

 A infância e a adolescência foi passada no bairro. “A mina não tinha estrutura que tem hoje, então brincávamos muito nela. Era uma diversão para as crianças que moravam ali perto”, relembra Vera. O pai, pedreiro azulejista, fazia questão da educação de qualidade para os três filhos.

Vera também se lembra da infância da menina negra entre a maioria branca. Mesmo sendo de uma família pobre, o pai de Lúcia Vera fazia questão de pagar a educação dos filhos, por isso, a menina estudou em colégios particulares. O primeiro, em 1967, foi o Colégio Adventista onde atualmente fica a sede da Igreja Adventista, depois, passaria a estudar no Pio XII e continuaria os estudos no colégio Jesus Maria José.

“Em todas essas escolas eu sempre fui a única negra na sala de aula. Por isso não convivi com negros, eu era a única negra no meio dos brancos. Como eu sempre gostei de teatro e dança, eu me sobressaia, mas não sei, se por não entender, não sentia o preconceito”, confessa ela.

A militante ainda fala de como é recente a aceitação da raça. “Eu convivia com as pessoas brancas e achava que tinha que seguir aquele padrão, como todas as meninas negras daquela época, eu alisava o meu cabelo, uma maneira de fazer parte daquele padrão”, explica ela. Ela ainda reforça que era tratada igual e não sentia o preconceito no ambiente escolar.

Voltando sobre a relação com a cidade, Lúcia lembra como era prazeroso percorrer a rua Assis Figueiredo. “Quando recordo a minha infância, vem a imagem de nós subindo e descendo a Assis. Também gostava de ir a Praça dos Macacos para passar a água sulfurosa no rosto, era muito gostoso”, lembra.

No início da adolescência, o teatro se intensificou e esse foi o caminho para conhecer mais pessoas como ela. “No Serviço de Obras Sociais de Poços de Caldas- SOS, tínhamos aula de teatro com uma grega, a Aída, ela era casada com um alemão e era uma pessoa muito engraçada”, comenta a militante. Foi no SOS que Vera passou a conviver com crianças que tinham a mesma condição econômica que ela, e nesses cursos, ela deixava de ser a única negra da sala de aula. “Passei a conviver com a cultura afro”, completa.

Nesse período o balé também entra na vida da adolescente. O Conservatório Municipal oferecia aulas da dança. “Nossa professora era italiana, mais uma vez, eu era única negra e a professora fazia questão de que eu apresentasse temas relacionados a cultura afro”, menciona Lúcia Vera.

Em uma das apresentações solo, o diretor do conservatório, disse uma frase que foi marcante para Vera. “Ele chegou nos meus pais e disse:  – O ar parou, a apresentação foi muito bonita!”, aquilo foi o primeiro orgulho da jovem bailarina. Com essas atividades, e principalmente o balé, Lúcia Vera conhece um dos lugares que mudaria sua relação com a própria raça.

O Chico Rei

Depois de algumas apresentações de dança, Vera é chamada para se apresentar na instituição Chico Rei. “Quando cheguei ao Chico Rei descobri que existia outro mundo, além daquele que cresci, onde eu sempre fui minoria”, fala Lúcia Vera que cresceu na instituição, participando ativamente das atividades que aconteciam no local.

O Chico Rei foi fundado em 1964, o seu fundador Mario Benedito Costa, tinha o interesse de criar um lugar de divertimento e confraternização para os negros, já que a maioria dos locais era predominante para brancos e os negros, quando participavam, eram hostilizados. Na verdade, dezoito casais foram os fundadores do local, mas Mario foi quem encabeçou o movimento. “Os casais se juntaram e compram a sede para que o povo negro pudesse ir, seria um ponto de encontro”, explica Lúcia.

A fundadora do SOS, Elza Monteiro, foi madrinha do Chico Rei. Vera Lúcia conta que recentemente foram encontradas algumas fotos da fundação do Chico Rei e dos famosos bailes que aconteciam no Palace Cassino. “Os bailes de gala do Chico Rei eram famosos e aconteciam no Palace. As feijoadas também eram tradicionais”, exalta a atual presidente da entidade. Outro famoso evento acontecia todo dia 12 de maio, era o Baile da Rainha do Chico Rei, também no Palace.

Outra lembrança boa era a boate que acontecia todos os domingos, a Zazueira, referindo-se a uma música de Jorge Benjor. Segundo ela, além dessa boate, a Caldense também tinha uma e no sindicato dos metalúrgicos, existia outra. “A Zazueira era muito famosa, fico me perguntando por que não conseguimos prosseguir com o lugar”, comenta ela.

A presidente fala da falta de registro dos primeiros passos da instituição. “Achamos algumas fotos recentemente, mas não temos muitos registros, isso foi perdido com o tempo”, lamenta ela. Um livro sobre os 50 anos da entidade está escrito pela professora Maria José de Souza, a Tita. Para que o mesmo erro não seja cometido, a presidente tem registrado todos os acontecimentos e quer resguardar a história do Chico Rei.

A militante ainda lamenta o esforço que os negros precisaram fazer para serem aceitos. “Muitas vezes os nossos lugares são paupérrimos, sempre precários. Os negros se tornavam bichos por serem tratados sem dignidade. O empoderamento do negro ainda é muito difícil, as pessoas sofrem muito para defender a raça e até para se aceitarem diante de tantos preconceitos. Para mim a questão de se falar preto ou negro não é uma dificuldade, existe sérias discussões a respeito disso, mas essa não é a nossa maior preocupação”, afirma ela.

O balé continua na vida da dançarina até seus 21 anos, período em que decide dar aulas de dança e resolve parar de estudar. “Não terminei o ensino médio e comecei a dar aulas, queria saber só de dançar, dava aulas em várias cidades da região”, conta ela. Umas das meninas que dançavam com Vera hoje está no balé de Bolshoi e, para  Lúcia Vera, a falta dos estudos atrapalhou a carreira de bailarina.

Comentando sobre a tristeza dos pais em vê-la parar os estudos, Lúcia Vera comenta que o próprio fundador do Chico Rei Mario Benedito Costa, que apesar de não ter formação, era muito culto e  também a questionava, amigos também não se conformavam, “Todos tentaram me convencer a não parar, eu poderia ter continuado os estudos e dado as aulas de balé”, arrepende-se ela.

Aos 25 anos, Lúcia Vera perde os pais. Ela tinha começado a trabalhar recentemente como auxiliar de fisioterapia. “Por conta do balé eu conheci a fisioterapeuta Tereza Cristina Alvisi, nos simpatizamos muito, ela tinha acabado de se formar e me convidou para trabalhar na clínica dela”, conta. Após três meses de iniciado o trabalho os pais falecem.

Como auxiliar de fisioterapia trabalhou mais de 20 anos e aprendeu muito nessa área, chegou a trabalhar nas Thermas Antônio Carlos na sala de mecanoterapia. Tereza também insistia para que a auxiliar fizesse algum curso universitário, mas Vera não tinha vontade. Ela fez cursos de massagem e massoterapia.

Após o nascimento dos filhos decidiu parar de trabalhar e dedicou-se a criação deles. “Quando tive o segundo filho parei com toda a militância e o trabalho. Deus preparou meu marido, nos conhecemos quando eu tinha 31 anos e com ele consegui construir a minha família”, fala.

Depois de muitos anos Vera reencontra Rui, o filho de Mario Benedito, o fundador do Chico Rei, que a convida a voltar à instituição. “Rui estava presidente e me chamou a voltar ao Chico Rei, meus filhos já estavam grandes e eu voltei, quando já estava fechado”. O Chico Rei passa por várias fases que a presidente não chega a participar até fechar as portas.

 Lúcia Vera participou do Chico Rei por muitos anos, mas ficou outros tantos afastada. Quando voltou, em 2000, assumiu a presidência. “A instituição estava abandonada, o local também e fomos retomando as atividades aos poucos”, reforça ela.

Em 2000 Lúcia Vera volta a fazer parte da diretoria, que sempre participou na adolescência, para retomar o trabalho do Chico Rei. Começa um projeto com adolescentes que o oferece aulas de capoeira e palestras. Depois desse abandono, o prédio precisou ser reformado para receber os adolescentes. “O imóvel é antiguíssimo, só de Chico Rei são 53 anos, antes era uma churrascaria”, fala Vera do imóvel que fica localizado ao lado do Country Club. Na reativação, as reuniões e confraternizações também voltaram.

Em 2010 a instituição perdeu o projeto e hoje enfrenta dificuldades financeiras. Em sua segunda gestão, a presidente tenta organizar as contas e continuar com as atividades de capoeira e rodas de conversa. Outro grande projeto atual do Chico Rei é a difusão da cultura afro nas escolas. “Esse período que estou presidente foi a época em que mais trabalhamos e estivemos ligados a mídia da cidade, divulgando o trabalho da instituição”, analisa.

Esse contato com as escolas acontecia de forma muito acanhada, uma vez por ano, principalmente em novembro quando se comemora a Consciência Negra, havia seminários criados para professores. “Percebemos que esses seminários não surtiam efeito e resolvemos mudar a proposta”, observou a presidente.

A lei 10.639 traz a obrigatoriedade do ensino da cultura afro- brasileira nas escolas. “Gosto de falar que é uma participação, porque o termo obrigatoriedade, já dificulta nosso acesso”, ressalta ela. Por isso, o Chico Rei começou a inserir essa cultura nas escolas. “A princípio precisávamos pedir, mas ao nos envolver com outros movimentos sociais, conseguimos fomentar o trabalho dentro das salas de aula”, completa.

O projeto começou tímido com algumas visitas por ano. “De repente cresceu, Ricardo Senegal, também militante, teve um papel muito importante com a implantação das rodas de conversas, e além de irmos às escolas trazíamos os jovens para a sede do Chico Rei”, comemora.

O assunto que os adolescentes têm mais curiosidade é a religião de matriz africana. “Temos diretores que falam sobre o tema e desmistificam a religião da Umbanda e Candomblé. Macumba é o instrumento africano, mas há mito preconceito em torno da religião”, explica.

Outra contribuição importante para o a instituição foi a vinda do professor Vagner Carvalho, da escola de capoeira CEEPC, para a diretoria. “A ideia do Vagner de levar vídeos que falavam sobre a cultura impulsionou novas visitas e conseguimos abranger muitos colégios”, comenta ela.

Meio Ambiente

Além da presidência do Chico Rei, Lúcia Vera acaba de assumir também a presidência da Associação Recriando, associação dos catadores de materiais recicláveis que há 10 anos defende os interesses desses trabalhadores, e trabalha, principalmente, a educação ambiental.

Ela foi uma das fundadoras do Coopersul, a cooperativa de reciclagem que fica na zona Sul da cidade.  “Nosso barracão ficava em frente ao hospital da zona Leste. E foi nessa época que eu comecei a aprender sobre reciclagem e colocar a mão na massa”, relembra ela.

Vera vem para reforçar o objetivo da associação, vai ajudar a difundir a educação ambiental nas escolas do município. “Já faço um trabalho com o Chico Rei onde ensinamos o valor da cultura afro para as crianças e adolescentes, quero alinhar a questão da educação ambiental a isso. A escola é um instrumento importantíssimo”, evidencia Lúcia Vera.

Depois de muitos anos de luta Lúcia Vera decide terminar os estudos e hoje cursa pedagogia. “Demorou a me convencer que precisava desse estudo, mas hoje estou disposta a aprender, para poder sempre ajudar mais, seja o negro, a criança ou o meio ambiente”, se dispõe. 

Marcos Salles

Bruna Santine

A família do nosso entrevistado foi responsável por manter a beleza das nossas praças e jardins. Com uma carreira sólida na prefeitura, Marcos Salles conta dos primeiros passos no trabalho ao lado do pai, que também cuidava da divisão de parque e jardins da cidade, e como gosta de ver o resultado nas áreas verdes de Poços.

 Marcos Salles nasceu  em Poços no ano de 1958 e criado na cidade. As gerações anteriores também vieram das fazendas que haviam na cidade sul mineira. “Meus avós eram alfaiates e tiveram alguns comércios conhecidos como a JL e JS, todos da família Salles”, conta Marcos.

O avô de Marcos saiu da área rural da cidade para trabalhar no Hotel Quisisana antes, ele ainda trabalhou na transferência de uma linha de trem na ferroviária, um pouco antes da Fepasa, onde o trabalho era todo feito em carroças.

Em 1948 o pai de Marcos, Miguel Arcanjo Salles, começa a trabalhar no horto municipal onde eram produzidas mudas para os jardins do município. Durante 54 anos o pai de Marcos se dedicou ao trabalho na prefeitura. Depois dos primeiros passos no horto, passou a ser responsável pela divisão de parques e jardins de Poços.

Marcos fala sobre os primeiros cuidados com a Praça dos Macacos, e posteriormente, a recuperação da praça Doutor Pedro Sanches. “A praça dos macacos estava abandonada, meu pai revitalizou o espaço. Chegou a receber uma menção honrosa da Câmara pelo trabalho feito por lá”, exalta o filho.

O antecessor de Miguel Salles, Armando Mendes foi o pioneiro nesses cuidados, ajudou a criar os jardins em torno do Palace Cassino e Palace Hotel em 1932. “O pessoal do paisagista Dierberger foi chamado a cidade para a criação dos jardins, todos os jardins são planejados, e o seu Armando ficou como o responsável, com a morte dele, meu pai assumiu o cargo”, conta Marcos.

Na criação dos jardins o projeto de paisagismo foi pensado de uma maneira que o Parque José Affonso Junqueira tivesse muito sombreamento, remetendo as características de um parque mesmo, com mais árvores e sem flores. Já na Praça Doutor Pedro Sanches, somente as laterais foram arborizadas e o centro ficou mais aberto para a entrada de luz e cultivo de flores. “Pensada para o turismo, a Praça Doutor Pedro Sanches serviria para o turista apreciar o sol da manhã, e o Parque José Affonso Junqueira para ele se refrescar nas tardes quentes”, enaltece o funcionário.

O projeto inicial é mantido atualmente, o controle é rigoroso em relação a alterações nos jardins. Marcos se lembra de uma época que as pessoas queriam plantar mudas no espaço. “O plantio desorganizava o planejamento da praça, no tombamento dessas praças, não há permissão da mudança do projeto inicial. Há um ajuste e cada mudança é fiscalizada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artísticos e Turístico- CONDEPHAAT”, explica o responsável pelos jardins.

Grande parte do trabalho do pai de Marcos podemos ver ao passearmos pelas praças da cidade. E Marcos continuou o trabalho do pai. Ele e o irmão começam também a trabalhar na prefeitura. “Eu comecei a trabalhar muito novo, como gari, varria os jardins de Poços. Depois assumi o lugar do meu pai no horto municipal, meu irmão o ajudava na manutenção dos jardins”, diz ele.

Em 1974 Marcos começa a trabalhar na área do pai, nesta data a cidade passava por uma arborização e várias árvores estavam sendo plantadas nas ruas. Nesse período, a divisão de parques e jardins cuidava dos três jardins centrais e a praça dos macacos e só havia alguns pequenos jardins espalhados na cidade. Hoje há mais de 100 praças espalhadas por Poços.

Ele se lembra das épocas difíceis do início do trabalho na prefeitura. “Nos primeiros anos a prefeitura não tinha o suporte que tem hoje, nós tínhamos que ir a Aguaí buscar grama e levávamos a nossa refeição, quantas vezes o almoço azedou por causa da alta temperatura e não tinha outro jeito, se não, comer”, conta.

Marcos explica como a arborização das ruas foi diferente. “As ruas eram largas, tinham canteiros e a arborização era feita com árvores maiores, como os Flamboyant da rua São Paulo e Pernambuco. Hoje não podemos mais plantar árvores desse porte por causa das redes elétricas e a passagem de veículos altos”, lamenta.

Sobre as mudas plantadas na cidade nessa arborização, Marcos fala havia poucas espécies disponíveis. Se conseguia produzir Flamboyant, Esparatoria, Jacarandá- Mimoso, Quaresmeira, Sibipiruna; são árvores  de grande porte que estão espalhas pela cidade. “Hoje não se aceita uma arborização com árvores desse porte”, finaliza. Alguns bairros da cidade foram arborizados somente com mudas frutíferas.

Com o falecimento do pai em 2001, Marcos é convidado a assumir a divisão de Parques e Jardins da cidade. E as áreas com paisagismo havia crescido, em uma administração Marcos se lembra que foram construídos cinco campos de futebol. Além disso, várias obras como: hospitais, creches e escolas tinham planos de paisagismo nos projetos.

Em outra administração, Marcos relembra a criação de dois grandes bosques na cidade, o do bairro Ipê e o do Monjolinho. Áreas muito grandes. “O bosque do Ipê meu pai construiu antes do projeto, como demorava muito a aprovação e o prefeito queria inaugurar o bosque, o prefeito o autorizou a fazer por conta própria”, confessa ele. Quando o projeto saiu, houve algumas pequenas adequações e esse foi um dos últimos trabalhos feito pelo pai de Marcos.

O funcionário público fala da tristeza em ver um dos lugares criado pelo pai abandonado. “Quantos bairros não gostariam de ter um bosque para visitarem, o abandono do Bosque do Monjolinho desmotiva muito o nosso trabalho. Como os moradores não frequentam dão abertura para vândalos que destroem o local”, analisa. Ele ainda sugere que as escolas deveriam levar os alunos para aulas práticas para que a comunidade se apropriasse do local.

Durante todo o seu trabalho na prefeitura, Marcos fala do seu empenho em fazer novas praças na cidade e da beleza de um cartão postal que saúda os turistas que chegam à cidade, as flores das árvores da Avenida João Pinheiro deslumbram moradores e visitantes. “Na avenida João Pinheiro havia somente eucaliptos plantados, depois foram plantadas as espatódeas, jacarandá- mimoso e as quaresmeiras”, específica ele.

Com a implantação do monotrilho houve a necessidade da criação de uma “cortina” de árvores para que a estrutura de concreto fosse escondida. “Nessa fase eu participei de todo o planejamento, o monotrilho foi feito por cima das quaresmeiras e a ‘cortina’ foi feita para disfarçar o cinza do concreto”, fala.

Outros dois grandes cartões postais da cidade também são cuidados pela divisão de Parques e Jardins. O Relógio Floral foi idealizado por Elisabeth Canta que vivia em Poços e adorava as praças. O pai de Marcos e Elisabeth fizeram pesquisas em outras cidades para construírem o relógio da cidade.

O calendário floral também foi idealizado por outra figura feminina, a esposa de Francisco de Assis da rádio Cultura, foi quem idealizou e orientou o paisagismo do calendário que contou com a ajuda do irmão de Marcos, Antônio. Os dias do calendário são feitos em pedras apropriadas, e todos os dias, antes do amanhecer, as pedras são trocadas. Para o servidor que exerce a função não existe mal tempo, feriados ou datas comemorativas que o impeçam de fazer o trabalho. Já em relação às estações, que são escritas com letras de vegetação, o horto já prepara as formas previamente.

O horto municipal

O horto municipal foi criado em 1932, foi quando houve a inauguração de grandes prédios na cidade e a revitalização do Country Clube. Houve a necessidade de criar um espaço para manter esses espaços da cidade. “Não havia floricultura que fornecesse essas mudas. Por conta das grandes áreas verdes da cidade havia necessidade dessa produção, não havia outro jeito”, reforça Marcos.

O primeiro viveiro de plantas foi criado ao lado do Country Club, como Poços tinha temperaturas muito baixas fazia-se uma proteção com árvores maiores para que a geada não estragasse a plantação e protegesse do sol ardente. “Nessa manutenção, o horto ficou muito sombreado e improdutivo para a produção de mudas de flores, que precisam de muito sol”, explica o responsável pelos jardins. Mas o horto Armnado Mendes é excelente para a produção de mudas de árvores. Então foi pensado um novo espaço para a plantação de mudas para paisagismo. “Quando o terreno perto do shopping foi desocupado pensamos nele para o plantio dessas mudas”, diz.

Em 1983, o engenheiro agrônomo e prefeito de Poços, José Aurélio Vilela, decidiu desativar o antigo campo de Golf e criar o atual Parque Municipal Antônio Molinari. Toda a modificação foi feita com mudas do horto. “Hoje temos diversas árvores frutíferas no parque, como pitanga e uvaia”, elenca ele.

Sobre os outros pontos turísticos, Marcos conta que a responsabilidade sobre eles foi passada há poucos anos para a divisão de jardins e parques, mas que todos foram revitalizados, mas fala em especial do recanto Japonês. “O trabalho do recanto japonês foi ensinado aos nossos funcionários por jardineiros japoneses contratados pela Mitsui. Temos jardineiros que são especialistas em jardins japoneses”, exata.

Marcos fala como é duro ver lugares que foram trabalhados serem abandonados. “É muito bonito você ver que um lugar de pasto foi transformado em uma paisagem tão linda, mas a falta de interesse me deixa triste. É algo muito valioso, mas que as pessoas não dão valor”, confessa.

Atualmente Marcos é o responsável pela Divisão de Parques e Jardins. Mas foi secretário adjunto na secretaria de serviços públicos, na secretaria de obras, na administração e foi convidado, por três vezes, a assumir a secretaria de Serviço Públicos. “Para mim foi uma honra, comecei na prefeitura menino e pude seguir a minha carreira no serviço público”, diz ele.

Os filhos foram criados no horto municipal, na época Marcos precisava morar no local para cuidar das mudas. “O trabalho no horto é constante, não tem sábado ou domingo. Minha filha sabe todos os nomes de plantas e meu filho se tornou biólogo, passou no concurso da prefeitura, e é mais um da geração da família Salles a cuidar da área verde da cidade”, comemora.

 É casado há 38 com a esposa Ana Celina que também se interessa por plantas. “Nas minhas decisões minha esposa sempre me ajuda e aos filhos também, em casa ela que toma conta das plantas eu não me arrisco a opinar”, brinca ele. A esposa, logo que se casou, também mudou para o horto e lá criou a família durante 15 anos.

O conhecimento adquiriu do pai e do trabalho na prática orgulha-se a ver que ajudou Poços a se tornar umas das cidades mais arborizadas do país. Com muito trabalho, ainda quer ver muitas transformações, mas espera que as pessoas entendam como é importante cultivar o verde e beleza das paisagens formadas pelos parques e jardins.

Ivair José Gonçalves

                                                                    Bruna Santine

Nosso entrevistado dessa semana chegou a Poços ainda adolescente e carrega na sua história o envolvimento direto com os turistas. Desde o seu primeiro emprego na antiga rodoviária até o emprego atual, sempre teve contato com as histórias de poços- caldenses e dos turistas que vinham visitar a cidade. Ivair José Gonçalves é taxista e atual presidente do Sindicato dos Taxistas, aqui, compartilha o trabalho feito nas ruas de Poços há 30 anos.

 Ivair José Gonçalves nasceu na cidade vizinha de Campestre- MG, mas desde pequeno foi acostumado a visitar Poços. Dessas visitas traz as lembranças dos jardins e das charretes. Quando tinha 15 anos a família se mudou para a cidade, e aos 17 anos, Ivair teve seu primeiro emprego na antiga rodoviária da cidade.

Trabalhou na antiga rodoviária por três anos, essa,  era localizada no espaço onde encontramos o Espaço Cultural da Urca. “Passei parte da minha adolescência na rodoviária. Achava bonito todo aquele movimento. Os taxis também ficavam na rodoviária”, conta Ivair.

Nos intervalos trabalhava também como guia turístico, por isso se recorda dos primeiros passeios do teleférico. “Levávamos os turistas para passear, mas eu mesmo nunca tinha andado, um dia, um deles me pediu para ir junto, eu morria de medo daquilo, mas acabei indo e gostando”, confessa o então guia turístico.

Segundo Ivair os pontos turísticos eram bem cuidados, diferente do abandono que alguns sofrem atualmente. “Ao chegar ao alto do Cristo pelo teleférico o turista tinha a opção de almoçar no alto da montanha. A Saturnino de Brito era um ponto maravilhoso, o ponto da Cascata também era outro lugar muito bonito, não tinha a usina ainda”, lembra o taxista.

Antes de se tornar taxista, Ivair ainda teve alguns comércios, trabalhou como motorista de caminhão, vendedor e também em um hotel da cidade.  Esse emprego no hotel o despertou a vontade de trabalhar como taxista.  Decidiu sair do emprego e arriscar-se na profissão.

Aos 26 anos começou a trabalhar como empregado, dirigindo o táxi de outra pessoa. Trabalhou por três anos. Com a experiência dos antigos empregos pode se virar nas ruas de Poços. “No início o que se precisava conhecer eram os pontos turísticos e a área central. Os bairros em Poços foram crescendo, tanto que até hoje eu não conheço todas as ruas da cidade”, confessa o taxista.

Como antigamente não existia celular, as ligações eram feitas no ponto, os clientes mais antigos ainda conservam esse hábito. “O celular apareceu mesmo em 1994, eu já trabalhava no táxi há algum tempo”, reforçou ele.

Em 1987 Ivair começa seus primeiros passos como taxista e fala sobre os bairros da cidade. “Os bairros mais antigos de Poços são: Jardim do Estado, Vila Cruz, Bairro São José, esses bairros já existiam e foram aumentando”, exemplifica.

Sobre os clientes Ivair fala da relação que construiu. “Tenho um cliente que comecei a atendê-lo quando ele começou a namorar a atual esposa, quando casaram os levei ao cartório e os três filhos que eles tiveram fui eu quem levou a maternidade”, fala ele do cliente fiel que até hoje, mesmo tendo seu próprio carro, ainda faz corridas com o amigo.

Dos vários clientes que o acompanham durante esses anos, muitos começaram a visitar a cidade há 20 anos e continuam fazendo corridas com ele. “Essas histórias nos completam mais que o dinheiro, poder acompanhar de perto a história dessas famílias é mais valioso, tenho cliente que conheço há 28 anos”, disse.

O turismo de antigamente era diferente, segundo o taxista, os turistas usavam mais ônibus interestaduais, por isso usavam mais o serviço do táxi. Mas atualmente, viajar de carro compensa mais. “Com essas facilidades, o turismo, para o taxista, diminuiu muito”, analisa.

O primeiro taxi de Ivair foi um Fiat 147. A mudança do clima da cidade alterou a maneira deles trabalharem. “O primeiro carro que tive com ar condicionado, em 1994, foi até criticado pelos meus parceiros, porque Poços era uma cidade fria, hoje quem não tem, perde cliente”, explica ele sobre um dos equipamentos essências de trabalho.

Outro fator que auxiliava na profissão era o trânsito, ou melhor, a falta dele. “Há anos conseguíamos calcular o tempo que gastaríamos do centro pra os bairros, a cidade era menor e não tinha trânsito. Hoje, não conseguimos calcular isso com a mesma precisão”, fala ele.

A esse respeito ele comenta de pequenos hábitos que os clientes não conseguem abandonar. Segundo Ivair, muitos têm a fidelidade com o motorista e exigem que a corrida seja feita por determinada pessoa. E sobre o tempo, muitos ainda querem que as corridas sejam calculadas antes mesmo dela acontecer.

Nessa profissão existe muita fidelidade. “Temos o cliente fiel ao ponto e o fiel ao motorista”, fala ele. Poços ainda preserva os pequenos aconchegos de cidade pequena. “Em algumas corridas a parada para um cafezinho é quase obrigatória”, brinca Ivair.

A maior qualidade de Poços para Ivair é o paradoxo de ser uma cidade pequena, do interior, mas dispor de coisas que somente a cidade grande ofereceria. “Moro há 40 anos na cidade me sinto um poços- caldense e nem penso em sair daqui”, homenageia o taxista.

Ivair ainda visita a cidade natal, ainda tem parentes em Campestre. A cidade também foi ponto de encontro dele e da esposa. Vindo da cidade vizinha e ela da cidade de Conceição da Aparecida- MG, os dois mudaram para Poços e aqui se conheceram.

Sobre o começo do namorado com a esposa, Ivair se lembra dos velhos costumes que o sogro, chegado da roça, ainda os preservou por um bom tempo. “Meu sogro era muito tradicional, para namorar a minha esposa, a minha cunhada tinha que ir junto”, brinca.  A Praça Pedro Sanches era o principal local de encontro deles.

Os pontos turísticos eram atração também para os moradores e Ivair comenta como isso não mudou. “O pessoal da cidade também usufrui muito dos pontos turísticos, encontro com muitos moradores nesses pontos”, relata.

Em certa época era mais vantajosa a corrida a noite do que durante o período do dia. Ivair fala que as corridas eram mais rápidas, porque havia menos trânsito e eram mais lucrativas, já que a tarifa cobrada no período é maior. Segundo ele a maioria dos carros trabalhava a noite. Hoje essa realidade mudou, poucos carros rodam no período noturno, para o taxista, isso ocorre pela questão de segurança e também por as pessoas possuírem carros próprios.

Questionado sobre a violência enfrentada, principalmente, nas corridas noturnas, Ivair desmente essa previsão. “Sempre houve ondas de assalto, passamos por momentos muito perigosos, mas hoje o policiamento em Poços é muito reforçado. A segurança melhorou muito”, fala ele sobre a melhoria do policiamento.

A eficácia da lei seca também foi outra alteração que ajudou na profissão dos taxistas. A punição e a intolerância com os níveis de álcool trouxeram uma necessidade de se precisar de um motorista, esse é um fator que os ajuda. “Essa educação está iniciando ainda entre os condutores, mas é uma vantagem para nós”, explica.

O Sindicato

Em 1968 foi fundada uma associação, no ano seguinte, tornou-se o Sindicato dos Taxistas. No oitavo mandato, Ivair vai para o nono e é um dos únicos a ficar por mais tempo a frente do Sindicato. A eleição ocorre da mesma maneira que uma eleição para prefeito, por exemplo. Com representante da federação e advogados, a eleição acontece e o presidente é eleito entre as chapas apresentadas.

O trabalho como presidente é uma responsabilidade feita por amor que ajuda os taxistas a se organizarem jurídica e economicamente. “O Sindicato faz parte do taxista”, fala ele. Ele ainda comenta de uma conquista do sindicato que poucos sabem. A classe tem um direito adquirido conquistado pelo sindicato. “Depois de dois anos trabalhando na profissão, os taxistas que queiram comprar um carro novo fica livre do IPI e do ICMS, economizando até 30% na compra do veículo. E não paga IPVA”, enumera.

Com 120 carros nas ruas de Poços a frota é considerada a mais nova da região. “isso ajuda a manter a clientela”, reforça. As viagens foram corridas que se estabeleceram a pouco tempo. Há 20 anos poucos taxis faziam esse trajeto. Atualmente, o deslocamento para outras cidades é frequente. “Todos os dias temos de 5 a 10 carros de táxi viajando, a maior parte para Campinas e São Paulo, ambas no estado de São Paulo”.

As empresas também sempre foram parceiras nas corridas dos taxistas. “Através da cooperativa de taxi conseguimos ter mais contato com essas empresas e aumentamos as nossas viagens”, fala o presidente do sindicato.

Sobre as histórias acompanhadas nesses 30 anos, as mais curiosas ainda envolvem os casais e suas idas ao motel. “Dessas histórias tivemos várias, de encontrar pessoas casadas com outros parceiros, pessoas que conhecíamos. Mas o motorista é surdo, mudo e cego, a descrição faz parte da nossa profissão”.

Sobre a postura que os profissionais devem ter, Ivair fala que não há regras rígidas, mas que o taxista tem que sentir o passageiro, saber o que ele gosta ou não, para não ser inconveniente. “A educação do motorista é torcer pra todos os times, aceitar todas as religiões e partidos políticos”, brinca ele.

Das profissões que trabalhou Ivair enaltece a de taxista e deseja continuar até quando puder. Sobre os futuros profissionais Ivair fala que ainda vê muitos jovens seguindo a profissão, é uma profissão de herança familiar, mas há os que optem por outra atividade. “Dos meus três filhos, somente um quis seguir, mas dois sobrinhos meus trabalham como taxistas”, comenta.

Ivair faz o que gosta. Por isso, sabe que a profissão exige que se trabalhe em datas como o Natal e Réveillon . “Em um dia 31 de dezembro fui buscar duas moças a meia noite. Na hora dos fogos, eu estava com elas. Então elas comentaram que aquele trabalho era muito ruim, porque eu não ficava com a minha família ou amigos. Mas eu nunca achei, e ainda brinquei com elas que eu estava na melhor profissão e melhor companhia. Sou pago para passear”, justificou Ivair.

A disposição, quase que 24 horas,  é um dos requisitos para conservar os clientes e seguir na profissão. No inicio os períodos de 18 horas eram normais. “Entre uma corrida e outra você conseguia descansar”, alivia ele. A melhoria das estradas e dos carros também ajudou na evolução da profissão. “As viagens são mais tranquilas, os carros são melhores, surgiram facilidades que ajudaram a nossa profissão, mesmo sendo uma cidade pequena, Poços acompanha as inovações”, comemora.

Casado há 36 anos, tem cinco filhos, dois netos. As reuniões aos domingos mais parece uma festa. “É bom ver a família reunida. O que o trabalho intenso não me permitiu fazer com os meus filhos tento fazer com os netos, levando eles para passearem no táxi.  Dizem que quanto maior a família, mais trabalhadora a pessoa se torna, acho que fiz bem isso”,  encerra o taxista.

Antônio Carlos da Silva

 Bruna Santine

O charreteiro Antônio Carlos da Silva herdou do seu pai a paixão pelos cavalos e a profissão, por isso, compartilha conosco os 55 anos percorridos na cidade em sua charrete. Acompanhou de perto a descoberta de alguns pontos turísticos, fala da convivência com os turistas e de leis que alteraram seu modo de trabalho, mas que não tirou a vontade de continuar a carreira do pai. 

Antônio Carlos da Silva nasceu no bairro Jardim Gama Cruz no dia 05 de junho 1949. A família era formada por oito irmãos. O pai era charreteiro.  Carlão, como é conhecido pelos colegas, se lembra da dificuldade do pai em manter a família. “Morávamos todos em uma casa pequena e pagávamos aluguel, então com 12 anos parei de estudar para ajudar a cuidar dos meus irmãos”, confessa. Carlão não era o mais velho, as irmãs que eram maiores não conseguiam emprego já que as mulheres não eram inseridas no mercado de trabalho.

Ele se lembra do antigo ponto das charretes, que ficava em frente ao Palace Hotel, onde encontramos os carrinhos de lanche atualmente, e foi lá que iniciou seu primeiro trabalho. "Comecei a trabalhar na charrete e no cavalo de sela”. O pai tinha vários cavalos que ficavam na serra do Cristo. “Eu buscava os cavalos no morro às 5 horas da manhã”, completa.

O bairro Vila Rica ainda não existia e Carlão se lembra da fazenda que ocupava o local. A fazenda era de uma família turca que plantava uvas. “A única rua que existia era a das Pedras, rua Afonso Pena, essa viela é uma das mais antigas da cidade, tem 100 anos”, exalta ele. A única casa que existia no bairro era a da família de Carlão.

Trabalhando Carlão pode ajudar nas despesas da casa, todo o salário do jovem ficava com o pai, assim foi durante 30 anos. “Só deixei de trabalhar para o meu pai quando me casei, depois disso, comecei a ficar com o meu salário”, explica ele que ajudou o pai a comprar uma casa e a se aposentar.

No início do trabalho como charreteiro Carlão levava os turistas a Represa Bortolan,  Cascata das Antas, aeroporto e a Represa Saturnino de Brito,  que eram pontos turísticos importantes na cidade. “Naquele tempo recebíamos uma média de 300 a 400 casais por semana que passavam a lua de mel em Poços, eram muitos casais”, reforça o charreteiro.

A estrada da Cascata das Antas era toda de terra, a avenida João Pinheiro também, e as árvores que dominavam a paisagem eram os eucaliptos. “Hoje os passeios são curtos, percorremos as fábricas da avenida João Pinheiro e levamos ao Country Club”, explica Carlão.

 As charretes eram mais utilizadas já que não existiam muitos carros na cidade, muito menos, táxis que pudessem transportar os turistas. “Havia 10 taxis na cidade, hoje tem 120. O turista não quer passeios longos, ele só quer fazer um pequeno passeio para mostrar as charretes pincipalmente às crianças”, comenta.

Carlão se lembrou de um episódio curioso que aconteceu enquanto trabalhava em sua charrete há 35 anos. “Um dia eu estava com turistas na barragem Bortolan e um carro se aproximou, dele desceu o humorista Chico Anysio, a esposa e os filhos. Fiquei surpreso em vê-lo, ele foi muito atencioso, nos cumprimentou e conversou conosco”, conta ele.

Sobre os fregueses que transportou durante todos esses anos, Carlão fala de um turista do Rio de Janeiro que se tornou um amigo. “Quando o seu Maurício veio pela primeira a Poços eu ainda era solteiro, depois ele começou a vir todo ano e sempre andava de charrete comigo,  ficamos tão amigos que ele foi padrinho de casamento da minha filha, participou do meu casamento e do casamento do meu filho”, exalta. O turista continua visitando Poços, agora além de cliente, é um amigo fiel de Carlão.

Quando Carlão começou o trabalho com pai as charretes eram diferentes, elas tinham duas rodas e um banquinho simples, só podiam levar duas pessoas, três com o condutor. Ele comenta como a evolução das charretes melhorou a saúde dos cavalos. “As charretes antigas judiavam mais do animal, eles carregavam muito peso, essas, mesmo sendo maiores, equilibram o peso no lombo dos animais”, explica o profissional.

Outro passeio muito comum era o passeio a cavalo, os turistas passeavam por toda a cidade. “Eu tinha turistas que andavam a manhã inteira, nós íamos até o Cristo, a Pedra Balão e saíamos na Fazenda do Barreiro, chegando ao Córrego Dantas. Cortávamos a cidade toda a cavalo”, relembra ele dos passeios que chegavam a durar seis horas e divertiam toda a família.

Com a urbanização esses passeios foram substituídos e deixou de ser interessante aos olhos do turista. Com aumento do volume dos carros e, consequentemente, do trânsito, o passeio se tornou inviável nas vias urbanas.

Os cavalos ficam no pasto até hoje, Carlão continua tratando dos cavalos bem cedo quando o sol nem pensa em aparecer. “Todos os dias, às 5 horas da manhã, eu levanto e vou tratar dos meus cavalos, pode estar chovendo ou geando”, brinca ele que volta a tratar dos cavalos no período da tarde.

O charreteiro possui três cavalos e depois de implantadas leis a proteção dos animais ele precisa revezar os animais. “Temos a nossa associação que tem pessoas que cuidam das charretes, temos três fiscais que sempre orientam a melhor forma de trabalho”, relata.

Os pontos turísticos

Carlão fala da descoberta do Véu das Noivas,   local que os charreteiros visitavam mesmo quando não era considerado um ponto turístico. “Foram os charreteiros que descobriram o Véu das Noivas como atração turística. Nós levávamos o turista à represa Bortolan, quando passávamos na estrada, víamos aquela cachoeira que ficava lá embaixo”, relembra ele.

Um dia, por curiosidade, Carlão conta que os amigos desceram até o local e viram que era uma cascata muito bonita, assim os próprios charreteiros fizeram uma trilha e começaram a levar os turistas. “Todo o terreno era de uma família do Rio de Janeiro, mas de tanto as pessoas começarem a visitar o local a prefeitura desapropriou as terras, depois de muitos anos fizeram um restaurante e aquela estrutura que tem hoje”, detalha.

Sobre os turistas, Carlão fala que o tempo de permanência dessas pessoas alterou. Anos atrás, Carlão fala que os turistas vinham para ficar um mês na cidade e passeavam todos os dias de charrete. “Hoje o turista vem para ficar um final de semana”, completa ele.

Essas pessoas gostavam de ficar na cidade para descansar, passavam de 15 a 20 dias nos hotéis como o Palace Cassino e os outros que eram famosos na cidade, como o Hotel Quisisana. Carlão fala como o hotel era um atrativo para turistas de todo o país. “O hotel era considerado um dos melhores do país, era comparado ao Hotel Quitandinha do Rio de Janeiro, lá dentro tinha fontes de água sulfurosa, cassinos, piscinas e tornou-se um ponto turístico”, enaltece ele que levava os turistas para conhecer a estrutura do espaço.

 Carlão lamenta sobre o destino do hotel que teve o prédio vendido e transformado em condomínio. “O hotel foi transformado em residências e o charme do lugar foi perdido. O prédio do hotel deve ter mais de 80 anos”, ele lamenta.

 E ainda fala do aumento do número de hotéis. Aos finais de semana o munícipio recebe um grande número de turistas e tem hotéis que comportam até 500 pessoas. Com o aumento da quantidade de  hotéis , o número de turistas acabou aumentando também, mas o tempo de estadia diminuiu. “Como eles geralmente ficam o final de semana, não há tempo para fazer todos os programas”, disse.

Outra mudança que o charreteiro notou em relação aos turistas que frequentam a cidade é que a grande maioria vem de cidades vizinhas. “Antes recebíamos turistas de todo o Brasil, dos estados do norte, nordeste e do sul. Hoje não, os turistas veem de cidades mais próximas e do estado de São Paulo”, afirmou.

O Country Club foi um dos primeiros pontos a fazer parte do roteiro turístico dos charreteiros e Carlão lembra do local. “Na ilha havia muitos macaquinhos, araras e capivaras mansas. Tinha um senhor, o Nardinho, que cuidava desses animais, mas ele já faleceu. Ele que construía os próprios barquinhos”, recorda.

Outro ponto tradicional era o Recanto Japonês, que na época, não se chamava assim. “Sempre levávamos os turistas nesse local, que antes chamava-se Caixa D’água. Conduzíamos eles de charrete até no meio da floresta para ver os animais e a paisagem natural que era muito bonita”, explica.

Sobre os cuidados com os cavalos, Carlão se lembra das famosas selarias da cidade. A de Chiquinho Seleiro, que ficava na rua Assis Figueiredo em frente a Farmácia Rosário e a de outro seleiro que ficava na rua São Paulo, em frente a igreja de São Benedito. “Esses seleiros faziam todas as peças, hoje nós que fazemos os equipamentos das charretes, o material pronto não é bom, então aprendemos a fazer”, confessa.

As ferrarias da cidade também foram lembradas, existiam três ferreiros em Poços. “Hoje nós mesmos que ferramos os cavalos, antigamente as ferraduras eram de rampão e com salto. A ferradura não tem mais esse salto, ela é lisa e feita de ferro. Antigamente, por ser  feita de aço, o salto da ferradura tinha a função de não deixar o cavalo escorregar”, explica..

Em 2003 Carlão teve um grave problema de saúde, descobriu que estava com câncer de garganta. Sobre isso, ele fala dos primeiros trabalhos do Sistema Único de Saúde- SUS no atendimento da área oncológica na cidade. “Fui um dos primeiros a usufruir do tratamento aqui na cidade, minha médica era a Doutora Helena. O tratamento foi tão bom que em três meses estava curado”, comemora Carlão que não precisa mais tomar remédios para a doença.

Para encerrar, ele fala um pouco sobre a criação da Associação de Condutores de Veículos de Tração Animal. “Antigamente existiam 74 charretes na cidade. Quando a associação foi formada houve a necessidade de diminuir a quantidade, assim algumas foram compradas pela associação e restaram as 48 charretes que temos hoje”, disse.

O ponto foi mudado há 40 anos para que o centro da cidade não fosse prejudicado, já que a cidade expandia rapidamente.  Carlão ainda se lembra da sujeira que os animais deixavam nas ruas e como isso foi solucionado por um político da época. “A proposta foi do prefeito Sebastião Navarro  que tinha visto a ideia dos “fraudões” em cidades de outro país. Ele trouxe o modelo para conhecermos. Nós adaptamos o fraudão, o original era de plástico e o nosso passou a ser de tambor que era mais durável”, explica ele. Pessoas de outras cidades depois visitavam Poços para ver a adaptação feita pelos charreteiros.

Carlão não se esquece de falar da mulher que sempre o ajudou em casa e hoje ajuda a filha com os cuidados com a neta. Pai de um casal, fala do filho que foi embora para os Estados Unidos e da filha que sempre esta por perto. Como avô, gosta de levar os dois netos, uma menina e um menino, para passear nas charretes. Completando 55 anos de trabalho no seu primeiro emprego, Carlão se orgulha em poder contar a sua história como charreteiro.

Terezinha Benedita de Oliveira

Bruna Santine

Terezinha Benedita de Oliveira sempre foi chamada para falar do irmão famoso, Mauro Ramos de Oliveira o jogador da seleção brasileira, mas também tem sua história para contar. Trabalhou como professora e ajudou a cuidar da família. Sem sair de Poços, viu os irmãos, aos poucos, voltarem para o paraíso, como ela define a casa onde viveram e vive. 

Recebeu o nome de Benedita, porque nasceu no dia de São Benedito e a mãe, como era muito católica, achou que se a menina não fosse batizada com esse nome, seria uma ofensa ao santo. “Eu não gostava do nome Benedita, mas em csa, me apelidaram de Ditinha”, confessa ela.

Terezinha acredita que Poços era melhor antigamente. “Era uma cidade muita calma, o progresso tornou as coisas difíceis para nós idosos, apesar das vantagens que surgiram”, comenta, reforçando a beleza da cidade.

Terezinha é poços-caldense aos 82 anos, se lembra da infância ao lado dos sete irmãos. O pai tinha um comércio de secos e molhados, e a mãe cuidava dos oito filhos. Tanto o seu pai, quanto a sua mãe eram viúvos. O pai tinha 15 filhos do primeiro casamento e sua mãe dois. Juntos tiveram seis filhos. “Quando se casaram formaram uma família de 19 pessoas, mas minha mãe era bem mais jovem que meu pai, havia uma diferença de mais de 20 anos”, ressalta Terezinha.

Desses filhos, alguns nasceram na rua Paraíba e Terezinha na rua Rio Grande do Sul. As irmãs mais novas na rua Assis Figueiredo, onde fica a atual casa da aposentada. “Moro nessa casa há mais de 60 anos, essa casa para mim é um paraíso, mesmo no centro da cidade, parece que moro em um sítio, acordamos com o cantar dos pássaros”, exalta.

Dos oito irmãos, hoje restam quatro mulheres. Terezinha cuida da irmã mais velha Dalva e comenta sobre ela. “Dalva sempre foi muito inteligente, foi uma das primeiras mulheres a passar em um concurso da área de direito, onde passaram 100 homens e três mulheres, uma delas, foi Dalva”, orgulha-se a irmã.

 Dalva cursou direito na Universidade de São Paulo, na renomada Largo de São Francisco. Mesmo passando neste concurso onde os homens eram maioria, ela não chegou a tomar posse do cargo, já que o marido não havia passado e ela entendeu que, tomando posse, ele se ofenderia. “O machismo era preponderante e ela achou que ele poderia se sentir inferiorizado”, conta a irmã.

Mais tarde, Dalva prestaria um novo concurso e se tornaria promotora. Aposentada pelo estado de São Paulo, aos 89 anos, sofre de Alzheimer e é cuidado por Terezinha. “Hoje Deus me deu a oportunidade de retribuir tudo que ela fez por mim como irmã mais velha”, fala ela.

 O comércio do pai de Tererizinha ficava na rua Assis Figueiredo onde hoje fica uma lotérica e uma farmácia. Terezinha se lembra de um freguês antigo do pai que tinha um restaurante chamado Caixa D’agua. “O restaurante do Gijo, que era um italiano, ficava onde hoje é o Recanto Japonês”, conta ela que recorda como o local era lindo e arborizado.

Aos domingos o italiano, que era muito amigo do pai de Terezinha, buscava as crianças de charrete para irem almoçar no restaurante. “Eu amava ver a paisagem do local e da natureza. As massas, principalmente, a macarronada tinha um tempero inesquecível. Nunca mais comi algo tão bom”, relembrou ela.

A aposentada e as irmãs estudaram o ginasial, o atual ensino fundamental, no colégio São Domingos e essa é uma recordação valiosa para ela. Ela ressalta como o ensino era de qualidade, como as freiras, que cuidavam do colégio e eram francesas, cuidavam da educação das alunas. “Dalva aprendeu a falar francês com as freiras”, lembra. Mais tarde, Terezinha tentou impedir o fechamento do colégio, mas as tentativas foram em vão.

O colégio Marista, que fazia divisa com a escola das freiras, hoje o colégio Municipal, era dirigido pelos irmãos e também foi lembrado. A educação também era exemplar, mas esse era exclusivo para homens. “Como o terreno do colégio São Domingos era enorme, do fundo dele, podia-se ver os meninos do Marista jogando futebol. Os dois colégios tinham internato”, diz Terezinha.

Os uniformes das duas escolas também eram famosos, Terezinha recorda que ela e os irmãos tinham muito cuidado com as roupas. Assim que chegavam da escola já tiravam o uniforme para que não amarrotasse ou sujasse. Outra característica da época era o uso de “distintivos”, com cores diferentes, nas camisetas, que identificam a série e a sala que o aluno estava cursando.

“As sainhas eram pregueadas, as blusinhas eram brancas de fustão e de gola marinheiro, com as iniciais do colégio bordadas. No começo, minha mãe que cuidava dos uniformes, depois, nós mesmas começamos a engoma-los”, comenta ela.  A casa de Terezinha, por ser muito central e ficar na Rua Assis Figueiredo, sempre foi o ponto de encontro dos colegas a caminho da escola.

Outra escola lembrada foi a escola infantil Menino Jesus, que tinha professores da prefeitura, mas as orientações de estudo eram feitas pelas freiras. Terezinha se formou como professora no São Domingos fazendo o curso normal, que era o estudo para professores da época.

Os irmãos foram crescendo e muitos foram para São Paulo, outros resolveram se casar e Terezinha continuou com os pais. “Quando pensei em ir embora para São Paulo, meu pai pediu pra eu ficar, porque a maioria já tinha saído e a casa ficaria muito vazia”, fala ela que anos depois viria vários irmãos retornarem para casa.

A professora

Com a morte do pai em 1954, Terezinha começa a trabalhar como professora na Fazenda Espírito Santo. Na época as professoras ficavam na fazenda, chegavam na segunda- feira e voltavam para a cidade na sexta- feira. “Cada professora ficava em uma fazenda e dávamos os quatro anos para as crianças. Era um ambiente muito gostoso. Fiquei três anos por lá”, conta ela, que depois mudaria para uma fazenda mais perto que a permitia ir e voltar todos os dias.

Na cidade deu aula na escola que havia estudado a escola Menino Jesus, por dois anos. A diretora do colégio era Julieta Brigagão e Terezinha tinha receio em pegar a turma por ter experiência somente em escolas rurais. “Eu fiquei com medo de não dar conta de dar as aulas, pedi auxilio a uma amiga, a Benedita Pires Duarte, e ela me incentivou a não desistir”.  Por fim, Terezinha trabalharia na secretaria do Ginásio Estadual, escola que ficava no prédio do atual Museu Geográfico e Histórico de Poços de Caldas, onde a diretora era Edir Fraya.

Terezinha se formou na primeira turma do curso de Letras na Pontifícia Universidade Católica  de Minas Gerais (PUC) , onde a diretora do Ginásio era a sua professora. Neste colégio, Terezinha fica até se aposentar.

Nesse tempo a mãe tinha aberto uma papelaria que começara no pequeno corredor da casa. O pequeno negócio se chamava ‘Papelaria Ramos de Oliveira’. “O espaço que ficava a loja de papai estava alugado, então minha mãe usou o corredor de casa, depois ela conseguiria montar o negócio no espaço maior com a saída do inquilino”, explica a professora.

Outra pessoa que Terezinha se lembrou foi do Doutor Sebastião Pinheiro Chagas, na época, diretor das Thermas Antônio Carlos, onde o  irmão Ajax chegaria a trabalhar. “Doutor Sebastião sempre ajudou a nossa família”.

Terezinha fala que a mãe conseguiu comprar a parte dos irmãos de uma fazenda herdada do avô em Botelhos, cidade vizinha a Poços, que se tornou o refugio da família. “Minha mãe, o Mauro e a Dalva sempre ficavam a semana em Botelhos e vinham para Poços no final de semana, eram os fazendeiros”, brinca ela.

Outra grande lembrança de Terezinha foi o fusquinha que ganhou da mãe. “Assim que ela me deu, pediu para eu batizá-lo.  Ela gostava muito de uma novela religiosa da Tupi que o protagonista era um frade chamado  Bentinho,  e esse foi o nome dado ao carro. Hoje o meu cachorrinho leva o mesmo nome”, fala ela.

Com as complicações de saúde da mãe a papelaria fecharia depois de 20 anos, e o espaço seria alugado novamente. “A farmácia já está no local há quase 30 anos. Abrimos a loteria, mas depois a vendemos”, comenta.

Com as tarefas de cuidar do pai, da mãe e dos irmãos, Terezinha dedicou-se a família e fez disso a sua vida. “Acho que Deus me designou a cuidar das outras famílias e não da minha própria”, desabafa Terezinha que não se casou, mas construiu sua família junto aos seus.

O irmão

Mauro Ramos de Oliveira ficou famoso por seu futebol  na seleção brasileira e pela conquista do título de 1962 como capitão do time. Terezinha conta que Mauro começou a jogar futebol ainda nos campos do colégio Marista, onde ele e os irmãos estudaram. Ela ainda comenta que ele tinha um espírito religioso muito forte, por isso não gostava de ver as pessoas sofrerem e ajudava a todos.

Ela lembra que a paixão pelo futebol começou muito cedo e as salas de aula eram trocadas pelos campos. Os irmãos do colégio sempre ligavam a procura dele e a mãe ficava furiosa. “Minha foi criada com muito rigor, ela era muito brava e já sabíamos o que ela queria através do olhar. Ela sonhava em ver o Mauro estudar”, destaca a aposentada.

Mauro estudou até a terceira série ginasial da época. Começou a jogar nas cidades vizinhas, em um desses jogos, ele foi descoberto. “O jogo era entre Desportiva, o time que Mauro jogava, e Palmeiras. Os diretores do Palmeiras gostaram de Mauro e se interessaram, mas após uma confusão em campo entre os times, eles desistiram”, lamenta a irmã.

Mas na época, o Piolim jogava em São João Da Boa Vista e levou Mauro para São Paulo. Aos 17 anos, Mauro foi contratado pelo time São Paulo Futebol Clube. Com 18 anos já era campeão paulista como zagueiro central e fez sua vida na metrópole. A irmã reforça que o espírito de ajudar as pessoas nunca o abandonou, então depois de se consolidar no time, além de ajudar as pessoas com suas palavras, ele passou a ajudar os amigos também financeiramente.

“Mesmo já morando eu São Paulo, quem cuidava do dinheiro dele era a minha mãe, então amigos que ele queria ajudar procuravam por ela, que já sabia o que fazer por eles”, lembra Terezinha.

Além do espírito solidário, Mauro também era lembrado por sua educação, postura e beleza. Em 1950 ele foi convocado pela primeira vez para a seleção, mas no último momento foi cortado. Em 1954 e 1958 ele participou das copas.

Em 1957, Mauro foi campeão pelo São Paulo com o técnico Béla Guttmann. “Mauro admirava muito esse treinador e me contou que ele o havia chamado a atenção dizendo que ele não era jogador para ficar em banco de reserva”, segundo Terezinha a fala era a respeito dos jogos da seleção onde Mauro ficava no banco de reservas com frequência.

 Outra situação do futebol eram as histórias cruzadas do jogador Bellini e Mauro, ambos jogaram em times da cidade de São João da Boa Vista- SP, um fez sucesso no Rio de Janeiro pelo time do Vasco da Gama e outro em São Paulo, pelo time do São Paulo. Na seleção, disputavam a mesma vaga.

Em 1962, Mauro estava com 32 anos e tinha a última oportunidade de ser campeão pela seleção. E o conselho de Béla Guttmann martelava na cabeça do jogador. Durante os últimos treinos da seleção ele foi destaque e saiu do Brasil como capitão. “Teve um treino que Mauro não se saiu bem, Bellini, que agora estava no banco de reservas, era cogitado para substitui-lo”, conta a irmã.

A escalação dos times da seleção era esperada por toda a família, principalmente por Terezinha, e Bellini e Mauro sempre eram cotados como capitão. Na véspera do jogo, o treinador da época, Aymoré Moreira, chamou Mauro para conversar. “A dúvida entre os dois jogadores ainda existia, mas Mauro se impôs e disse que se não fosse titular não serviria mais a seleção”. No dia seguinte, Mauro era o capitão confirmado.

 No jogo decisivo entre Brasil e Espanha, Amarildo, a estreia do time brasileiro, faria os dois gols da vitória. Mauro levantaria a taça de campeão e encerraria a carreira da melhor maneira possível. Depois disso, o zagueiro jogou no México, fez o curso de treinador, trabalhando com isso no país. “Fui visitá-lo em Guadalajara, a capital do país, visitei a praia de Acapulco. Todos ostentavam a cidade de São Paulo e escutavam a canção Garota de Ipanema”, exalta ela.

Anos depois ele voltaria para o Brasil, tentaria a carreira como treinador, trabalharia no time do Santos, com o Pelé no time, mas não se adaptaria.  Aposentou-se e voltou para Poços depois de ficar viúvo aos 52 anos.

Terezinha Couto

Bruna Santine

Terezinha Couto foi quase uma exploradora das terras brasileiras, através de seu trabalho em grandes empresas pelo país pode ver de perto a criação de muitas delas, inclusive da Alcoa em Poços. E foi essa experiência que a fez procurar novos rumos e colocar Poços no caminho das ações sustentáveis.

Natural de Alpinópolis, cidade mais conhecida como Ventania, Terezinha era a mais velha de uma família que completaria onze filhos. Mas logo a família numerosa mudou-se para Alfenas-MG, onde Terezinha concluiu o ensino médio. Terminado os estudos, Terezinha fica sabendo da vinda de uma grande empresa pra Poços, a Alcominas, e por isso muda-se para Poços.

Quando chegou à cidade conseguiu um emprego no hospital. “Cheguei a Poços pela manhã e a tarde já estava empregada”, lembra Terezinha. A família logo veio atrás da menina que buscava o seu sonho. “Desde menina eu já me correspondia através de cartas com pessoas do mundo todo, sempre gostei do idioma inglês e fazia isso para treinar a língua. O desejo de viajar e conhecer vários lugares também sempre me acompanhou”, confessa ela. Logo que chegou, aos 19 anos, foi à procura do emprego na grande empresa, que se instalava na cidade. “Dois meses depois eu consegui o emprego na fábrica”, comentou.

A seleção era rigorosa. “A primeira pessoa que eu conheci na Alcoa foi Marília Gonzaga, assim que fui ao escritório da empresa deixar meu currículo, ela me informou sobre a seleção”, fala Terezinha. Ela conta que eram mais de 30 meninas concorrendo à vaga na primeira entrevista, mas, Terezinha sairia empregada.

 Na Alcominas, foram exigidos documentos pessoais para a admissão da nova funcionária. “Eles pediram documentos básicos como identidade, CPF e carteira profissional, mas eu não tinha nenhum deles”, brinca ela. Naquele período não era usual as pessoas possuírem todos os documentos. No novo emprego, em 15 dias, ela seria promovida. Terezinha chegou no final da construção da fábrica em 1969 e no ano seguinte, a Alcoa iniciava a produção de alumínio na cidade. Começando como auxiliar administrativo, a jovem é promovida a secretária, e posteriormente a secretária bilíngue. “Meu marido também veio trabalhar na Alcoa, logo me casei e tive meu primeiro filho”, conta Terezinha que ficou na empresa até 1977.

 O marido conseguiria um emprego na empresa Jari Florestal, grande projeto às margens do Rio Jari, que divide os estados do Pará e Amapá. “Vimos um anúncio no jornal sobre uma vaga para secretária executiva para a diretoria, eu estava grávida, mas mesmo assim enviei meu currículo junto com o de meu marido,que trabalhava na Viação Santa Cruz”, relembra ela.

 Nesse meio tempo, um amigo de Lázaro, o marido de Terezinha, que trabalhava no projeto do Pará, o indicou para o cargo de gerente de recursos humanos. “Minha filha estava com um mês quando fomos visitar o projeto”, especifica Terezinha.

O projeto, que ficava no meio da floresta Amazônica, englobava uma plantação de arroz em São Raimundo, e, em Monte Dourado, exploração florestal e de caulim,uma areia branca, usada em indústrias de refratários e cerâmica, entre outros usos,e uma fábrica de celulose em processo de implantação.

Terezinha comenta sobre esta fábrica. “A estrutura foi trazida pronta do Japão, de navio, eles só prepararam o local e “estacionaram” a construção em cima do estaqueamento de maçaranduba, uma madeira muito resistente encontrada na região amazônica. O know-how para a fabricação de celulose era finlandês. Monte Dourado era a cidade construída pela própria companhia para abrigar os cerca de 10 mil funcionários, com infraestrutura que incluía escolas, hospitais e áreas de lazer. Nesta companhia, Terezinha e o marido trabalharam por dois anos.

Esse início de carreira, apesar dos desafios de morar em lugares distantes, segundo Terezinha, foi bom para a economia da família. “Não tínhamos onde gastar dinheiro, não havia lojas ou outros lugares para se gastar, a única coisa que existia na cidade era um supermercado”.

Com essa oportunidade, Terezinha conviveu com pessoas de todo o mundo, ela lembra que no local havia 33 nacionalidades. Nesta empresa Terezinha trabalha com a Folha Confidencial, setor que incluía o controle das rotinas trabalhistas referentes a diretores, gerentes e expatriados, isto é, empregados vindos de outros países para trabalhar no Brasil.

Além das boas experiências, Terezinha fala que o confinamento era uma questão que, às vezes, incomodava. “Saber que você está em um lugar que só se pode sair de avião ou barco era um pouco assustador. O barco demorava três dias e duas noites para chegar a Belém”, explica ela.

Em uma dessas viagens de avião, um dos pilotos confessou que a única alternativa que eles teriam, caso ocorresse alguma pane, seria um pequeno espaço, no meio da imensidão florestal, para cair.

Nessas experiências Terezinha aprendeu a ficar isolada de qualquer tipo de comunicação, não havia televisão, rádio, e o telefone tinha hora certa para ser utilizado, já que somente uma central telefônica atendia todos os funcionários. “Os jornais, recebíamos três dias depois”, reforça ela.

Outra constatação difícil, foi ver de perto a desertificação de alguns espaços na floresta. “Havia uma clareira que tinha sido desmatada e virou um deserto. A estrutura do local da empresa era muito grande. E o governo já estava pressionando para o projeto sair do grupo estrangeiro e passar para um grupo brasileiro”, explica.

A volta para Alcoa

 Em 1980 o casal tinha voltado para Poços, Terezinha estava de licença maternidade, mas já tinha outro emprego garantido na cidade. Porém, um novo convite da Alcoa surgiria novamente para o casal, que desta vez iria participar da construção de uma planta de produção de alumínio da empresa em São Luís- MA.

Nessas empresas, Terezinha sempre usufruiu da estrutura que a empresa fornecia. “Em São Luís, algumas famílias de funcionários da Alcoa se uniram e construíram um condomínio, o que foi muito bom para nós”, lembra Terezinha.

Terezinha ainda comenta como as pessoas do nordeste eram receptivas e como conseguiram fazer muitas amizades no local. Outro atrativo da região eram as praias. “As praias de São Luís são imensas, principalmente nas marés baixas, quando são formadas pequenas “piscinas”, onde as crianças adoravam brincar. Todos os finais de semana eram na praia”, recorda.

Nesta etapa, Terezinha e o marido ficam por cinco anos na cidade maranhense. “Fui para trabalhar como secretária do diretor da construção, e depois passei a trabalhar também com a folha confidencial dos gerentes e diretores e novamente na supervisão do setor de expatriados”, conta ela.

 Neste momento, Terezinha era responsável por recepcionar as famílias estrangeiras dos empregados de outros países que chegavam para trabalhar no projeto da Alumar, um consórcio das empresas Alcoa e Shell-Billiton, cuidando de sua instalação na cidade e de questões relacionadas a trabalho, documentação, entre outras. No convívio com esses estrangeiros, Terezinha lembra algumas curiosidades. ”Os holandeses tinham muita facilidade em aprender o português, em pouco tempo já estavam falando a língua. Eram pessoas muito educadas”.

 Ao final da fase da construção do projeto e início das operações da fábrica, Terezinha explica como a empresa conduzia seus empregados. “Como vários funcionários tinham sido contratos apenas para construção, quando esta acabou, a própria empresa procurou ajudá-los a se recolocarem no mercado de trabalho, e esse era o papel do meu marido no setor de recurso humanos”, explica.

Lázaro, marido de Terezinha, pesquisava as grandes obras que estavam acontecendo no Brasil para saber em quais empresas ele conseguiria recolocar os trabalhadores. Um desses grandes projetos era o da empresa Aracruz Celulose, no Espírito Santo, e uma nova proposta de emprego surgiu. “O gerente de recursos humanos tinha se desligado da companhia e o queriam no lugar dele”, recorda ela.

Terezinha também trabalhava na área de recursos humanos e, com a proposta do marido, a família se muda novamente, agora para morarem no Bairro de Coqueiral, mais um bairro de funcionários, desta vez da empresa Aracruz. “Esse bairro era maravilhoso, ondeas casas eram cercadas de áreas gramadas, sem muros, apenas com cercas-vivas e ficava a beira mar”, descreve ela.

 Porém, nesta empresa, Terezinha não consegue uma vaga, então ela começa a fazer traduções de material técnico e manuais. “Durante os sete anos que morei lá trabalhei com tradução e nunca me faltou trabalho. Eu tinha um contrato de prestação de serviços com a empresa e, como trabalhava em casa, pude participar mais do crescimento das minhas crianças e exercer outras atividades de que gostava, como pintura sobre tela”, exalta.

A Escola Ativa de Coqueiral era considerada a escola padrão do estado. O bairro estava cerca de meia hora da capital. “Meu filho queria fazer vestibular para grandes universidades e a escola disponibilizava aulas específicas para o vestibular das faculdades escolhidas pelo aluno”, explica a tradutora que sente que esse foi um dos melhores lugares que ela pode morar.

Após sete anos vivendo no Espírito Santo, em 1994, a família decide voltar a morar em Poços de Caldas e pela terceira vez voltam a trabalhar para a Alcoa.“Dessa última vez eu trabalhei na área administrativa da fábrica de pó de alumínio”, pontua Terezinha, que, desta vez, fica quase 15 anos na empresa. O marido trabalha na fusão da Divisão de Cabos com a empresa Phelps. E recebe mais um chamado para trabalhar na construção da Veracel Celulose, um consórcio das empresas Aracruz Celulose com a Stora –Enzo, um grande projeto instalado no sul da Bahia, onde trabalhou por três anos. Após isso, ele volta para Alcoa na expansão da Alumar, em São Luís, e para o projeto Juruti, até se aposentar.

Com a família estabelecida e reunida, uma das filhas decide fazer vestibular de engenharia civil na cidade e Terezinha resolve arriscar também. “Fiz sem muitas pretensões. Com a insistência de um amigo, que também tinha prestado, fui ver o resultado, todos tinham passado, e eu tinha ficado em segundo lugar”, surpreendeu-se a nova estudante.

Com mais de 40 anos, formada em economia, Terezinha começa a cursar a universidade novamente juntamente com a filha.

A APS

Ainda dentro da Alcoa Terezinha começa a ter os primeiros contatos com os conceitos de sustentabilidade. “Foi trabalhando na Equipe Líder de Relações Institucionais da Alcoa que comecei a repensar o sentido que deveria dar a minha vida”, confessa.

A rotina do trabalho já a cansava e começou a querer seguir outros rumos. Já aposentada, Terezinha decide sair da empresa e foca em atividades que lhe façam bem. Abriu uma empresa de prestação de serviço voltada as áreas de recursos humanos, sustentabilidade e responsabilidade social empresarial, para usar muitos dos conhecimentos adquiridos na Alcoa. Mesmo trabalhando na Alcoa continuou com as traduções para a Aracruz. Mas no final de 2010 surgiria o convite para participar da Associação Poços Sustentável, que inicialmente foi pensada como Conselho Poços Sustentável.

Com a necessidade de uma diretoria executiva, Terezinha se voluntariou e está desde 2011 à frente da Associação que conta, no seu Conselho de Administração, com representantes de empresas locais, universidades, organizações sociais, poder público e dos próprios associados, sempre com a missão de sensibilizar e mobilizar os vários segmentos da sociedade para contribuir na construção de uma cidade mais justa e sustentável.

Com uma equipe pequena, as ações começaram em 2011. No mesmo ano, Terezinha sofreu com a perda do marido e do filho e fez da APS seu refúgio para seguir em frente. Em outubro desse ano, acontece o primeiro Fórum de Sustentabilidade, com apoio da Alcoa e outras empresas locais.

 O foco da associação sempre foi o bem da cidade. No dia 19 de julho de 2012, a APS promoveu o lançamento do Programa Cidades Sustentáveis em Poços de Caldas, quando os candidatos a prefeito, inclusive o prefeito eleito, assinaram a Carta Compromisso, comprometendo-se a realizar um diagnóstico da situação da cidade baseado nos indicadores do programa, para a elaboração de um Plano de Metas a ser divulgado para toda a população. O Programa incentiva a participação de cidadãos, empresas, mídia e poder público na promoção e no acompanhamento de compromissos que visam ao desenvolvimento sustentável.

Neste mesmo ano, a APS promove o Giro Sustentável juntamente com a OSCIP Planeta Solidário, onde a associação apresenta vários temas sustentáveis. “É uma maneira de buscar atitudes mais sustentáveis através das artes, do esporte, cultura e das atividades nas escolas”, enaltece.

Em 2015, em sua quarta edição, o Giro promoveu 51 atividades, com mais de 60 parceiros, nos três dias do evento. Abordando temas como cidade sustentável, economia de água, energia e reciclagem.

No mesmo ano aconteceu a Feira Verde na Alcoa para os próprios funcionários e para a comunidade. “A APS também divulga a plataforma www.economizeoplaneta.com.br, através da qual pode-se calcular a pegada de carbono de cada pessoa. Respondendo um questionário, a pessoa descobre quanto ela emite de CO2 para a atmosfera e o site envia sugestões de como o individuo pode reduzir o tamanho da sua pegada”. Além dos trabalhos em escolas, condomínios e eventos, a APS tem parceria com a Ação Reciclar, cooperativa de material reciclável, oferecendo apoio técnico em seus projetos.

O ano de 2016 foi marcado por várias atividades, com destaque para o Encontro dos Candidatos a Prefeito de Poços para a assinatura da Carta Compromisso do Programa Cidades Sustentáveis, no dia 23 de setembro. Seis dos oito candidatos se comprometeram a implantar o programa em Poços de Caldas, levantando indicadores de sustentabilidade, cobrindo todas as áreas da gestão publicada,incluindo saúde, educação, bens naturais, mobilidade urbana, entre outras, e elaborando um Plano de Metas. “Cada cidade elege os indicadores importantes para a cidade, e através dos quais, podem nortear decisões conscientes e necessárias para a população. É uma ferramenta de ajuda aos governantes”, enfatiza a diretora.

Algumas representações da APS privilegiam Poços de Caldas quando o assunto é sustentabilidade, conhecimento e inovação. Neste ano de 2017, a cidade vai sediar o Encontro da Rede de Cidades Sustentáveis, reunindo representantes de movimentos de dezenas de cidades que trabalham para a construção de cidades mais justas e sustentáveis.

Também durante este ano, a APS terá uma intensa programação com o projeto “Diálogos para a Sustentabilidade”, que engloba seis eventos, abordando temas de interesse da comunidade, para o enfrentamento dos grandes dilemas ambientais, climáticos e sociais. O primeiro evento acontecerá no Dia Mundial da Água, 22/março, na PUC, com o tema: O Valor da Água. A programação contempla ainda os seguintes eventos: 17/maio – “Reciclagem e Sustentabilidade; 05/Junho – Dia Mundial do Meio Ambiente; 25/Agosto – Segurança Alimentar- Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs); 22/setembro – A Hegemonia do Carro e 26/outubro – Encontro da Rede de Cidades Sustentáveis, mencionado acima. Nesses anos de dedicação, Terezinha trabalha intensamente para que a cidade possa ser pioneira em muitas ações sustentáveis. Para as filhas e netos, consegue passar para as futuras gerações a importância da preocupação com o meio ambiente. Com novos rumos em sua vida, encontra tempo para lembrar os caminhos que a levaram até aqui.

Edgar Marcos de Oliveira

Bruna Santine

Nosso entrevistado da semana aposentou-se como professor de história, mas fez da causa social o trilho da sua vida. Edgar Marcos Oliveira defendeu causas como sindicalista na área de educação, lutou pela democracia fundando o Partido dos Trabalhadores na cidade e, além disso, foi uma das primeiras pessoas a trazer o conceito de rádio comunitária para a região.

Os pais de Edgar vieram de Campestre- MG em 1937 com os quatro filhos, em Poços, aconteceu o nascimento de mais oito filhos completando a família. Edgar é o mais novo, a rapa do tacho. O pai de Edgar era barbeiro e músico.  Duplas como Tunico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada e toda a música sertaneja o fascinavam. Chegou a gravar um “bolachão”, o disco de vinil, em uma gravação solo. “O movimento de duplas sertanejas só foi se concretizar nos anos 80. Estou à procura desse bolachão, que está com algum irmão, mas ainda vou encontrar”, conta o comunicador. “Coincidentemente a minha emissora de rádio toca somente músicas sertanejas”, completa ele.

A mãe trabalhava em casa e cuidava dos doze filhos, mas depois de um período, abriu uma pensão, sendo uma empreendedora para a época. “Antes da década de 50 minha mãe abriu algumas pensões no centro da cidade e foi assim que criou todos os filhos”, lembra Edgar.

Assim, os filhos começaram a traçar seus caminhos. Edgar lembra, com orgulho, do irmão mais velho, que foi uma inspiração para a escolha da profissão de professor de história. “Adelmar, o mais velho, foi no ano de 1972, vereador, quando esse cargo não tinha remuneração. E diretor da escola São João da Escócia, lecionando por mais de 30 anos também em história”, exalta Edgar o irmão que hoje está com 84 anos.

O professor aposentado se lembra dos estudos quando criança. “Na época em que eu estudava não existia o atual segundo grau na rede pública, somente na rede particular”. Edgar estudou no colégio Virgínia da Gama Salgado, escola pública que ficava no prédio que atualmente está situado o Museu Histórico e Geográfico de Poços. “Como não existia escola pública na década de 70 fizeram seis salas ao lado daquele prédio. Quando terminei os estudos eu não tinha emprego e não podia fazer o segundo grau, já que todos eram em escolas particulares”, reforça o professor.

Além das escolas particulares, Edgar ainda lembra que as escolas Jesus Maria José e São Domingos eram, exclusivamente, femininas e o São Domingos ainda tinha o internato.

A família sempre morou na área do bairro Vila Nova, zona leste da cidade. Ainda que, por um período, instalaram-se no centro, local onde funcionava a pensão da mãe. “Os preços dos alugueis da área central começaram a aumentar, e por isso, mudamos para o bairro”, comenta Edgar.

“Em 1972, Poços de Caldas tinha 84.752 habitantes”, fala com exatidão Edgar que havia trabalhado no censo da época. Nesse período a única faculdade que existia em Poços era a Faculdade Municipal de Filosofia, que muitos anos depois firmaria convênio com a Universidade do Estado de Minas Gerais- UEMG. “A prefeitura ainda repassa uma verba para a faculdade de pedagogia que diz respeito à antiga faculdade de filosofia”, explica o também comunicador.

Sem poder estudar nas escolas particulares, os 16 anos, Edgar se muda para a cidade de Espírito Santo do Pinhal-SP para estudar na escola agrícola da cidade. A escola era uma oportunidade para os alunos que não tinham condições financeiras. “Eu morava no colégio, para ganharmos a alimentação, era necessário trabalharmos. Durante o período da manhã estudávamos e durante a tarde, toda semana, tínhamos sessões para fazer, que eram os trabalhos na escola. Aprendi a cozinhar, a fazer doces cristalizados, a mexer com animais e café”, conta Edgar sobre o mecanismo ditatorial que os diretores da escola implantavam na escola.

O terreno da escola foi doado pelo Estado, mas a escola se mantinha com a plantação de café, arroz e o cuidado dos animais. O tiro de guerra também foi feito em Pinhal. Em 1974, Edgar percebeu que com o curso de Pinhal não conseguiria o profissionalizar, já que na época não existia o técnico agrícola, então resolveu ir atrás de uma profissão. “Voltei para Poços, com quase 20 anos, para estudar no recém-criado Colégio Municipal, mais ou menos, em 1977”, lembra ele que se formou como técnico de agrimensura, a chamada topografia, que é a medição de terrenos.

Além dos estudos, Edgar fala da época em que o trabalho era iniciado muito cedo. Aos 13 anos ele já trabalhava. Até a década de 80 existiu o chamado salário do menor, em que já havia o registro em carteira. Desde muito novo trabalhou como ajudante em farmácias, comércio e bares.

Concomitantemente aos estudos no Municipal, Edgar trabalhou por cinco anos na Cerâmica Togni como técnico administrativo, mas nunca trabalhou na formação de técnico de agrimensura. “Me lembro que o teste para entrar na cerâmica foi o de datilografia, a máquina de escrever era o computador da época”, brinca ele.

O colégio São Domingos abriu algumas vagas para um curso que ensinava datilografia para aqueles que não podiam pagar por um, onde Edgar fez o curso, e que foi um dos requisitos principais para entrar na Cerâmica.

Passados alguns anos de trabalho na Cerâmica Togni, Edgar resolve começar o curso de história. “Sempre gostei de história, já tinha a influência do meu irmão mais velho, mas a opção de conseguir ‘subir’ na vida também era uma motivação”, confessa ele.

Em Poços e na região não existia a faculdade de história, então Edgar percebeu que o mercado precisava de profissionais nessa área. “A cidade mais próxima que tinha a faculdade era Guaxupé- MG. “Uma irmã minha foi transferida para a empresa Polenghi,  fabricante dos queijos polenguinho, que também ficava em Guaxupé”, lembra ele. Hoje, a fábrica não existe mais na cidade.

Sobre essa irmã, Edgar ainda lembra que ela participou do lançamento do Danoninho no Brasil,  antes ela tralhara na Danone, empresa francesa que tinha se instalado em Poços. “O lançamento no Brasil do iogurte foi feita em Poços”, exalta ele.

O professor relata as dificuldades que tinha para chegar à cidade de Guaxupé. “Eu frequentava a faculdade as terças, quartas e quintas-feiras, eram os dias que eu tinha dinheiro para ir”, conta ele lembrando que uma das estradas acabava na cidade de  Muzambinho- MG e continuava por caminhos de terra.

Com um mês de faculdade, um convite inesperado o surpreendeu. “Me chamaram para ir até o antigo colégio que eu havia estudado, o Virgílio Gama Salgado”, quem o chamava era a senhora Edir Fraya, diretora do colégio e esposa do geólogo Resk Fraya, que o queria como professor de história da escola.

Segundo o professor, Edir era muito direta e logo lhe disse que precisava de um professor, e que esse professor seria ele. “Adverti a senhora Edir que eu estava no primeiro mês da faculdade, que não tinha experiência. Ela me respondeu dizendo que me conhecia desde criança, sabia das minhas participações dentro da escola como presidente do grêmio e que eu daria conta”, assim começava a carreira de professor logo no início da faculdade.

Uma curiosidade sobre os exames de admissão da época era a obrigatoriedade da radiografia do tórax. “Havia somente médicos clínicos gerais e todo ano tínhamos que tirar o raio- x do pulmão, naquela época muitas pessoas morreram por causa da pneumonia”, explica Edgar.

Era comum profissionais formados no curso de Direito darem aulas de história, havia falta do profissional formado na matéria. Na faculdade, Edgar lembra da vigilância da ditadura militar. “Havia os P2, os militares descaracterizados que ficavam dentro das salas de aula e eu vi um professor ser preso”, lembra Edgar que também foi o presidente do diretório acadêmico da faculdade.

Em 1979, houve umas das primeiras greves educacionais da história do Brasil, foi um dos maiores movimentos dos sindicados educacionais, que tomavam força. Através do Sindicato Único dos Trabalhadores de Educação- UTE, hoje chamado Sind-UTE/MG a greve ocorreu. “A greve surgiu pela falta de concursos públicos e pelos privilégios de alguns cargos de direção, as diretoras eram nomeadas pelos políticos”, salienta o professor.

Maria Teresa Mariano

Bruna Santine

Maria Teresa Mariano é geógrafa, professora e ambientalista. Apesar de não ter nascido em Poços fez das lutas da cidade, as suas. Com muita energia fez a causa do meio ambiente sua vida, foram passos aprendidos com o pai que trabalhou em reservas ambientais. Em Poços, pode dividir tudo que a vida próxima das reservas lhe ensinou.

A relação da geógrafa com Minas Gerais é longa, começa pelos passeios a casa do avô em Ipuiuna, mesmo nascendo em Piracicaba, interior de São Paulo, Maria Teresa se recorda muito da infância na fazenda e também nas reservas florestais.

 A forte influência do pai é marcante em suas falas. “Meu pai, Gonçalo Mariano cursou a Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz formado pela ESALQ/  USP e foi convidado para trabalhar no Instituto Florestal, ele foi o primeiro engenheiro agrônomo chefe da Serra da Cantareira”, exalta Teresa.

Por conta da profissão, Gonçalo demorou três dias para saber do nascimento da filha. “Nasci na véspera de feriado, 30 de abril, estávamos na casa da minha avó em Piracicaba”, conta. Nesses dias houve um incêndio criminoso na serra, e o pai de Maria, como chefe do local, foi, junto com os funcionários, ajudar a apagar o fogo. “Na época a comunicação era a rádio, como ele estava ajudando na contenção das chamas não tinha como comunica-lo”, comenta Teresa  lembrando que hoje a Serra da Cantareira é considera uma floresta da biosfera.

A relação com Minas começa com o pai, que nasceu em uma fazenda entre Senador José Bento e Congonhal, cidades do interior de Minas, e que estudou como aluno interno do colégio Marista, hoje o colégio Municipal. No colégio, foi colega de Washington de Novaes, famoso jornalista ligado a temas do meio ambiente e cultura indígena. “Da última vez que estivemos em Poços, meu pai me pediu insistentemente para passar na rua Pernambuco, curiosa, perguntei  o que que tinha nessa rua”, comenta Maria Teresa.

Em resposta, o pai dizia que queria se lembrar da época que estudava no colégio Marista e que saia para passear no centro da cidade. A rua Pernambuco que ele tanto insistia em rever trazia a sua memória a imagem de um antigo brejo e o rio por onde as pessoas passavam. “Ele conta que uma vez caiu nesse brejo, que já recebia esgoto da cidade, e teve que voltar para casa para tomar banho”, lembra a filha.

Depois de passar pela cidade de Pouso Alegre, Gonçalo Mariano, muda-se para Piracicaba para fazer a escola de agronomia. Entre as viagens de Piracicaba para Ipuiuna Maria Teresa se  lembra das paradas em Poços. “Sempre parávamos naquela loja que fica em frente a praça Pedro Sanches. Me recordo muito bem de uma bonequinha que ele sempre comprava para mim, e do dono da loja se aproximar para oferecer doce de leite. Então Poços, para mim, se resumia nessa boneca e nesse doce de leite”, brinca ela. A loja a qual ela se refere é a Foto Praça 1 fundada em 1950 que continua no mesmo local.

Com o passar dos anos, outras estradas foram construídas e o trajeto da viagem seria outro. “A partir dai meu pai começou a fazer o caminho que passava por Espírito Santo do Pinhal, Ibitiúra de Minas, Santa Rita de Caldas, Caldas e Ipuiuna, tendo parentes em toda aquela região. Desde pequena estabeleci uma relação com a cidade, dos meus irmãos, somente eu me interessei por esses caminhos”, exalta o posto de filha mais velha.

Com a voz rouca, de tanto dar aulas, como ela mesma menciona, Maria Teresa se relembra das lutas do pai. “Meu pai foi pesquisador do Instituto Florestal, chegou a recuperar mais de quatro unidades de conservação de reservas do estado”, conta ela.

Como pesquisador, o pai foi trabalhar na unidade de preservação de Tupi, perto de Piracicaba, onde Maria morou por três anos. Ainda criança, aos 6 anos, se divertia ao andar pelas terras da reserva e ter o privilégio de buscar o pai no trabalho. “No meio do caminho tinha um centro de meteorologia, quando chovia eu já sabia que o técnico estaria no local e como eu era muito curiosa, gostava de entrar no centro para ver o que todos aqueles aparelhos faziam”, relembra a geógrafa que muitas vezes se perdia na curiosidade, mas era resgatada pelo pai.

Além disso, Maria Teresa se lembra de umas das tarefas mais difíceis que seu pai teve que acatar enquanto funcionário do Instituto. “Ele foi o primeiro agrônomo que teve que comandar o plantio dos primeiros talhões de pinos de eucaliptos no Brasil, em Itirapina, próximo a São Carlos, onde tinha uma unidade do Instituto Florestal”, explica ela ao lembrar que a área se tratava de um lindo cerrado. “Os funcionários do meu pai contaram que ao ver todo o cerrado modificado para o plantio do eucalipto, ele sentou e chorou”, comenta ela. O pai não se conformava ao ver que estavam colocando uma espécie desconhecida em terras brasileiras, e que tinham acabado com um belo cerrado.

Maria Teresa, na época com mais de sete anos, se lembra  que não existia o termo ecologia, o pai era especializado em floresta, e já passava a ela os ensinamentos e valores que a terra trazia a ele.

Sobre esse plantio, Teresa lembra o que o pai descobriu com a observação do eucalipto, trazido da Austrália, as consequências do plantio que até então eram desconhecidas. “A primeira alteração que meu pai notou foi o desaparecimento de um pequeno lago natural que havia no meio da plantação, questionado por um funcionário se aterraria o lago, ele pediu para que fizesse uma placa e escrevesse que ali havia um lago natural”, reforçou Maria Teresa.

O primeiro trabalho do pai surgiria da volta deste lago quatro anos depois, ele observaria que a terra precisava de um tempo para se recuperar daquele plantio. “Meu pai percebeu que quando os pinos de eucaliptos chegavam à idade adulta eles paravam de puxar toda aquela água e somente utilizava água suficiente para sobreviver”, explica ela que o pai dizia que o grande defeito da humanidade era não conhecer o sistema ecológico e natural.

O aumento de plantação de eucaliptos deteriorou muitas terras, quando a única solução, seria ter mais paciência. “A pressa do capitalismo não consegue esperar que o eucalipto, após a fase adulta, permaneça na terra por mais alguns três ou quatro anos para que o ciclo hidrológico volte, e consequentemente, não roube a água do ambiente. Como não há essa espera retira-se a água do ambiente, provocando desertificações”, finaliza a também ambientalista.

Ainda no convívio com o pai e seu trabalho Maria fala como aprendeu o que era suborno e o quem era o Estado. “Uma vez peguei alguns clipes da mesa do meu pai para levar para casa, meu pai me reprendeu na hora e disse que tudo que existia naquele escritório era do Estado, nada daquele local se podia levar para casa”, reforça ela ao dizer que achava que o Estado era um homem muito bravo.

Por muitas vezes viu o pai receber presentes de fábricas como a Faber- Castell, ou outras que participavam dos leilões das madeiras plantadas nas reservas, mas ele sempre lhe mostrou que tudo era do Estado. “Uma vez ele ganhou dois quadros da Faber Castell que tinha os estojos e lápis que toda criança queria ter na época, como ele havia ganhado dois, na minha cabeça o Estado já tinha o dele, então o outro seria para mim”, brinca ela que recebeu do pai mais uma lição, dizendo que um iria para o museu do Instituto Florestal em São Paulo e o outro ficaria na reserva para que fosse mostrado aos visitantes.

No dia da entrevista, Maria Teresa teve a notícia que o atual governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin iria vender e privatizar 35 unidades de conservação do Instituto Florestal, inclusive a que ela morou. “Quando meu pai foi para essas unidades não havia nada, não havia água, meu pai ajudou a estruturar todo aquele local, a achar as nascentes. Aprendi a nadar nessas primeiras nascentes”, revolta-se ela.

A ligação com a terra foi além do trabalho do pai, na fazenda do avô, Maria aprendeu sobre o valor da terra e o trabalho no campo. “Eu passava férias na fazenda e tinha uma ligação forte com o meu avô. Eu adorava descer com a minha avó até o porão, onde eu a ajudava a salgar os queijos que ela havia feito. Me lembro também de um moinho que gerava energia, era uma mini hidrelétrica, e meu avô me levava para a abrir a pequena comporta” , ressalta a geógrafa que já teria seus primeiros ensinamentos.

A energia era gerada para a fazenda, a comporta era aberta no final da tarde e fechada pela manhã para represar a água. “Hoje me assusto ao ver que meus sobrinhos não sabem de onde vem o leite, ou o ovo”, brinca ela.

Em consequência da profissão do pai ela teve muito contato com as reservas e assim conviveu de perto com pequenos ensinamentos, a mãe muita vezes ficava em cidades próximas com as crianças como Rio Claro e Piracicaba. “Mesmo não ficando na reserva de Itirapina, quando criança, anos depois voltei ao mesmo local para fazer o mestrado no Centro de Recursos Hídricos de Ecologia aplicada da USP. Um pedaço da reserva foi doado pelo Estado para a universidade, e pude reencontrar algumas pessoas que tinham trabalhado com o meu pai”, comenta.

No regresso as terras que o pai tinha ajudado a preservar a geógrafa pode constatar que parte tinha sido dominada por condomínios, outra pela faculdade para pesquisas. “Perdemos muitos trabalhos naquele local porque o pessoal do condomínio não respeitava as delimitações de boias de pesquisa” , lamenta ela.

O pai faleceu de uma fibrose pulmonar, provocada, muito provavelmente por um fungo de floresta.

A ligação com Poços

 Em 1999, já formada, residindo em Piracicaba, onde mora até hoje, mas dando aulas na Pontifícia Universidade Católica- PUC de São Paulo, Maria Teresa fica sabendo pelo irmão que a PUC de Poços estava com concurso aberto na área de meio ambiente, mas especificamento no curso de engenharia de telecomunicações. “Faltava um dia para o encerramento das inscrições, chamei meu pai e viemos para Poços, sem deixar de passar em todas as cidades da região para ver os parentes”, brinca ela.

Nessa época Maria Teresa já era ativista na área de meio ambiente e já trabalhava em ONGs. Disputando a vaga com mais dezessete concorrentes foi aprovada graças a um tema, que até meses antes, não sabia o que significava. “Quando fui olhar os temas me deparei com efeitos deletérios na saúde da radio frequência- poluição invisível, eu não sabia do que se tratava” confessa a ambientalista.

Voltando a Piracicaba ela encontrou um amigo vereador e comentou que prestaria esse concurso, mas que um tema a incomodava porque ela não fazia a menor ideia do que se tratava. Coincidentemente, o vereador tinha acabado de pedir um requerimento sobre o assunto, pois pessoas com câncer tinham processado a rede de comunicações Globo pela exposição à radiofrequência, o que teria provocado a doença.  Assim ela teve acesso a esse material e pode estudar e conhecer o assunto. O principal tema da seleção para o ingresso na universidade foi exatamente esse.

Em 2001 começa a dar aulas na cidade. “Cheguei animada por estar perto dos parentes do meu pai e nas terras de Minas, também gostei de como a PUC trabalhava”, comenta a geógrafa que ainda era assessora do secretário de meio ambiente de Piracicaba e dava aulas na faculdade de engenharia também de Piracicaba.

Aos poucos os trabalhos em Poços aumentaram. “Comecei na engenharia elétrica, depois passei a dar aulas de gestão ambiental para os alunos de Administração. Participei de um concurso interno da PUC e montei um curso de lato sensu de gestão ambiental, que hoje se chama Gestão ambiental e sustentabilidade. Além disso,fui pra engenharia civil com a matéria ‘Ciência do Ambiente’, ainda dou aulas de ecologia no curso de Medicina Veterinária”, elenca a professora.

 Maria Teresa ainda comenta sobre a preocupação que tinha com grandes empresas mineradoras que se instalaram na cidade. “As minhas salas eram cheias de funcionários da Alcoa, e pude passar a realidade para eles. Quando conheci a Alcoa pude ver como o caso era grave”, reforça.

  Há mais de oito anos atua também como representante da PUC e conselheira titular no Comitê de Bacias dos Rios Afluentes Mineiros Mogi- Pardo.  “Tivemos muitos trabalhos premiados com gerenciamento de resíduos e questões ligadas ao meio ambiente”, ressaltou ela.

 A professora participou da formação da clínica de Direito Ambiental. O núcleo de práticas jurídicas abrangia as áreas de meio ambiente, patrimônio público e direitos humanos. “Nessa clínica ajudamos a organizar a primeira associação de catadores de lixo de Poços”, reforça ela que enxergava a importância de saber para onde o lixo iria e como era o trabalho nos lixões.

A partir desse contato começa mais um grande envolvimento com a questão ambiental da cidade e com os catadores de lixo. “O aterro de Poços tinha 14 pessoas idosas catando lixo, diferente de todos os outros lixões pelo país que recebiam jovens a beira da marginalidade. Tínhamos um trabalho com o curso de fisioterapia também, que cuidava da saúde desses catadores”, completa a professora.

Na área jurídica Maria Teresa tentou auxilia-los de uma maneira livre para que eles escolhessem o melhor para a associação. “Além de todos os problemas ainda tínhamos que mediar o trabalho dos catadores com o dos lixeiros, que também recolhiam material reciclável, e também queriam receber por aquilo”, salienta ela.

Nesse trabalho a professora ajudou na criação da associação e ficou estabelecido que uma parte do dinheiro coletado fosse para o fundo de garantia e férias dos catadores, e os lixeiros ganhariam um pouco menos, já que já tinham esses direitos garantidos. No lixão puderam fazer uma estrutura com um local para almoço e um banheiro. “A ideia era parar o caminhão logo no início para que já se separasse o material reciclável. Mas havia muito trabalho em separar materiais de construção, pilhas e eletrônicos”, explica Maria Teresa que em seis meses conseguiu reunir uma quantia financeira favorável de giro para a associação.

Depois de alguns anos, com a troca da prefeitura, houve a proibição do trabalho de pessoas no lixão e a associação foi desfeita. Em uma reunião avisaram os catadores que eles não teriam mais emprego. “Pedi para alguém ceder um barracão para que eles pudessem trabalhar ninguém se manifestou e nada foi feito. O fazendeiro que tinha terras ao lado do lixão ainda os ajudou, mas não perdurou porque não podiam entrar mais no naquele local de trabalho”, relata a ambientalista.

Ativismo ambiental

 Antes do trabalhado realizado em Poços Maria Teresa foi conselheira do meio ambiente do estado de São Paulo, representava todas as organizações não governamentais – ONGs ambientalistas do interior de São Paulo.

Nessa posição como conselheira, trabalhou ativamente contra grandes monopólios que construíam empreendimentos sem respeitar as leis básicas de proteção ao meio ambiente. “ No caso Xuxa Parque, eu fui a segunda citada, votei contra, justificando que eu não sabia do que se tratava”, disse a ambientalista que votou por instinto e mais tarde saberia que o parque seria construído numa área de restinga. O parque não foi construído.

 Maria também deu aulas na cidade de Varginha no curso de especialização de saneamento ambiental, falando de avaliação de pacto ambiental. “Como aluno eu tinha um funcionário do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis- Ibama que faria o laudo do Xuxa Paque em São Paulo, ele escutou toda a minha explicação, e depois de uma visita a campo comprovou  que era uma área de restinga e que o estado de São Paulo não poderia ter autorizado a construção”, enfatiza Maria Teresa.

Outra história marcante no ativismo ambiental da geógrafa foi com outro parque, o parque aquático Wet’n Wild, em Vinhedo. “O parque foi feito sem licença, Eu tinha uma reunião marcada em São Paulo e a pauta era a discussão da licença ambiental deste parque, eu saia de São Carlos e no caminho vi que o parque já estava sendo inaugurado. Liguei para o promotor do conselho indagando o porquê da reunião já que o parque já tinha inaugurado. Ele não sabia do ocorrido e em minutos ele interditou a inauguração”, comemora a ambientalista.

Neste caso, o parque, que tirava água do subsolo, prejudicou mais de 100 produtores de frutas finas que existiam ao redor, deixando esses agricultores sem água. Com a licença ambiental isso não teria ocorrido, por isso, um professor que também era conselheiro propôs o feitio um sistema de tratamento de baixo do parque. “Foi feito um cálculo de quanto eles poderiam tirar por mês de água do subsolo para não prejudicar os produtores que já usavam aquelas águas”, explica a ambientalista.

Há muito tempo convivendo com a preservação do meio ambiente Maria Teresa lembra das responsabilidades que tinha desde muito pequena. “Por ser filha do chefe da reserva, todo dia da árvore eu tinha que fazer um discurso na escola, eu não gostava daquilo, eu morria de vergonha, mas fazia pelo meu pai”, brinca ela.

Maria Teresa sempre contribuiu em questões relevantes para a cidade na câmara Municipal de Poços, principalmente, pelo Paço Municipal, uma área de recarga de água. “No ano de 2015, apenas quatro conselheiros votaram contra entubar uma parte do córrego Vai e Volta que passa perto do supermercado Bretas”, diz ela. Tal decisão acarretaria na destruição que a  forte enchente enfrentada pela cidade, em janeiro de 2016, deixaria na cidade.

Junto com outras pessoas, reformulou a proposta de criação da Secretaria de Meio Ambiente para Poços, que foi protocolado na câmera, mas não foi discutido. “A secretaria mudou o nome para Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente, mas não houve a mudança necessária”, desabafa a ambientalista que não sabe mais do andamento da Secretaria.

 A ambientalista, professora, geógrafa e a orgulhosa filha de Gonçalo Mariano não deixa de falar do seu amor por Minas e por Poços. “Adoro a cidade de Poços, adoro o meu trabalho na PUC, amo dar aulas, mesmo sendo um desafio, porque os alunos hoje em dia não tem motivação”, confessa ela que fez e continua fazendo muito pelo meio ambiente, pela cidade e por todos que estão nela. 

Paulo César Pereira

Completando quase 60 anos de trabalho no Mercado Municipal de Poços de Caldas, Paulo César Pereira pode compartilhar conosco a história de um dos mais importantes locais da cidade. Além de ser apreciado pelos turistas, o Mercado Municipal é também patrimônio da cidade e Paulo pode acompanhar toda a sua história.

Natural de Machado, Paulo César Pereira morava no munícipio de Campestre- MG, onde o pai tinha um sítio. Anos depois a família veio para Poços sem nenhuma experiência ou profissão definida, mas logo que chegou à cidade, Paulo foi trabalhar no Mercado Municipal. Paulo tinha 18 anos quando iniciou seu trabalho no Mercado Municipal de Poços de Caldas, o tradicional comércio ficava no prédio onde hoje a loja de construção Casa Carneiro se instala.

O pai de Paulo também trabalhava no mercado, no Empório Nossa Senhora Aparecida vendia mercadorias do sítio, como feijão, milho, arroz e queijo. Mas, Paulo tinha sua própria banca, em frente a do seu pai. Em sua banca, vendia frutas e artefatos de madeira.

Paulo lembra como era a rotina no mercado no começo da profissão como vendedor. “Quando entrei no mercado meus planos era ficar um ou dois anos no trabalho até arrumar um emprego melhor”, confessa o comerciante. Mas com o passar do tempo, Paulo gostou da rotina do mercado e nunca mais saiu dele. No dia 7 de fevereiro deste ano (2017) completou 57 anos de trabalho dentro do Mercado Municipal.

A chegada

Poços era uma cidade pacata e pequena quando Paulo chegou e ele lembra quando as ruas ainda eram de terra, como o Jardim dos Estados e outras ruas próximas ao centro. Além disso, o Mercado Municipal atual não existia e ao seu redor a terra ainda dominava os chãos.

Paulo morou no bairro Santana, continuação dos Jardim dos Estados, depois morou na rua Major Luis Loiola, paralela a rua Expedicionários, onde morou por muito tempo até se casar. Nesses bairros, acompanhou a evolução de Poços.

Ele fala das histórias que vivenciou dentro do mercado. “Nessa estrada do mercado vimos muitas pessoas entrarem, fazerem sucesso, mas também vimos muitas pessoas que não conseguiram permanecer”, fala saudosista o comerciante.

As bancas eram fechadas, com muita mercadoria espalhada pelas estantes. “Havia uma porta grande que “mergulhávamos” para dentro da banca, e dentro dela, eu usava uma banqueta porque o balcão era muito alto, assim eu ganhava altura, e ficava em cima da banqueta o dia todo”, diverte-se o comerciante.

Em 1960, o Mercado Municipal era diferente, na época era comum vender galinhas vivas, já que o costume era matar o animal em casa para se fazer o alimento fresco. “Me lembro do ‘Poço Fundo’,comerciante que tinha uma gaiola de frangos vivos. Era uma porta grande de grade e se escolhia o frango que queria, jogava-se uns grãos de milho, o frango vinha e ele pegava o animal”, lembra o comerciante.

Outras pessoas que Paulo recordou foram o Zé do Passarinho, comerciante que vendia pássaros, outra prática comum da época. E de uma portuguesa que se chamava Filipona. “Ela tinha um papagaio e sempre andava com ele nos ombros, e o pessoal mexia muito com ela”, relata Paulo.

O comerciante ainda fala dos fiscais do mercado. “Como fiscais tivemos o Paulo Alvisi, o Sargaço, e o seu Américo”, comenta o comerciante sobre os profissionais que trabalharam como fiscais do Mercado Municipal. “Tinham pessoas boas, algumas, apesar de concorrentes, ainda continuavam sendo parceiras, pessoas boas de conviver”, completa ele ao lembrar da família que se formava no local.

O Mercado Municipal localizava-se nas ruas Assis Figueiredo, Avenida Francisco Salles e a rua Pernambuco. “Na rua Pernambuco acontecia a feira livre, muito diferente da que acontece hoje,  a feira tinha panos improvisados e as mercadorias eram distribuídas no chão mesmo”, explica Paulo.

Um local que ficou marcado na memória do feirante foi o Grande Hotel, que ficava ao lado do mercado, também na Avenida Francisco Salles, e que a proprietária era Dona Mariquinha.  O Grande Hotel foi um dos primeiros hotéis da cidade, juntamente com o Hotel Lealdade e o Palace Hotel. “Tinham poucos hotéis, mas todos sempre estavam cheios”, lembra ele.

 Paulo ainda lembra que a feira livre começou a acontecer no local atual tempos antes do estabelecimento do mercado no local.  No mercado antigo Paulo trabalhou dos anos 60 aos 70, quando foi inaugurado o novo mercado.

Paulo comenta sobre o motivo da mudança de local do mercado. “O prédio era do Estado, emprestado para a Prefeitura, além disso, o espaço não era mais suficiente, e o trânsito também era uma preocupação por estar em umas das esquinas mais movimentadas da cidade”, esclarece ele.

 O comerciante conta sobre as propostas que os políticos tinham para o Mercado. “Entre os candidatos a prefeito da época, estava o Dr. Martinho e o David Ottoni Filho, o primeiro, tinha a proposta de desapropriar os prédios perto do mercado para que ele fosse aumentado. Já David Otoni, como engenheiro, propôs a construção do novo prédio, como este foi eleito, o novo prédio do mercado foi construído no endereço atual”.

Mas a adaptação ao novo local também não foi fácil. No início havia poucas bancas. “Muitos não tiveram condições de se mudarem, outros não quiseram, então só havia metade do mercado com as lojas, a outra metade ficava vazia”, relata o comerciante.

Paulo conta que o acesso às ruas do mercado não era fácil, as ruas eram precárias, o terreno limitava ao rio e os turistas, muitas vezes, não conseguiam chegar ao local. “Ficávamos isolados e não foi fácil nos adaptar a isso, o turista não nos achava, mas com o tempo foi melhorando o acesso”, explica.

Outro fator que ajudou na recuperação de clientes foi a divulgação nos hotéis. “Os hotéis da cidade passaram a indicar o mercado, a explicar onde se localizava, e isso nos ajudou a receber novamente os turistas”, ressalta Paulo.

Como o mercado era da Prefeitura os feirantes tinham que se adaptar ao horário imposto, que era das seis horas da manhã às dezessete horas. “Hoje o mercado funciona como um condomínio, temos o síndico, e com ele, temos reuniões para decidir o melhor para todos. Com isso conseguimos adaptar horários ou outras necessidades que os comerciantes precisam”, explica Paulo.

O Mercado Municipal é um ponto turístico obrigatório e os habitantes da cidade também se acostumaram a colocarem o local em sua rotina. “Os turistas comentam que vir a Poços e não ir ao mercado, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa”, brinca Paulo.

Com o tempo Paulo adaptou-se as necessidades dos clientes. Depois das frutas, passou a vender cestas de palha que eram feitas na região. “Eu vendia muita mercadoria para Salvador, tinha clientes em todo o Brasil”, exalta o comerciante.

Paulo comenta de um caso curioso que aconteceu. Ele foi participar de uma festa de São Benedito em Machado- MG, a festa na cidade acontecia no mês de agosto, chegando a casa de parentes, Paulo estava decidido a passar alguns dias. “Na noite em que cheguei sonhei que a minha irmã, que deixei cuidando da loja, estava toda atrapalhada e não conseguia atender ao cliente. Acordei e decidi voltar para Poços”, conta ele. Ao ser indagado pelo primo sobre o porquê daquela decisão repentina, ele respondeu que iria atender somente um freguês e voltaria.

O comerciante fala que no sonho ele via que um cliente de Salvador estava na loja e a irmã não conseguia atendê-lo. “Quase não consegui pegar o ônibus que já estava saindo, mas o motorista me esperou. Chegando a Poços estava tudo calmo, falei com a minha irmã e ela informou que o Ananias, o cliente de Salvador, estava mesmo lá. O encontrei e disse que tinha voltado só para atendê-lo”, conta o comerciante que depois voltaria para Machado.

As sensações de pressentir a vinda de clientes ainda o acompanharam outras vezes. “Outra vez sonhei com um cliente de Águas de São Pedro- SP. Sonhei que ele estava comprando as mercadorias na cidade. No dia seguinte, cheguei à banca e já comecei a separar a mercadoria dele. Meu pai me perguntou se eu já tinha vendido toda aquela mercadoria, eu disse que ainda não, mas que iria vender, que o cliente iria chegar”, brinca ele.

Minutos depois o cliente aparecia e se surpreendia ao ver toda a mercadoria que precisava já separada no mezanino. “O cliente estranhou e me perguntou se eu já tinha vendido a mercadoria para outra pessoa, eu disse que não, que eu já havia separado tudo para ele mesmo”, fala o comerciante que deixava, até o seus clientes, surpresos com a adivinhação.

Essas histórias rondaram a vida profissional do feirante, que sem ter como explicar, criou uma sintonia com seus fregueses que o fazia pressentir o dia que visitariam sua banca. E  outras coincidências dessas se repetiram nos anos de trabalho. “Sonhei com outra freguesa, a Dona Emília, e assim que cheguei, já separei a mercadoria dela. Ao chegar, ela ficou espantada ao ver a mercadoria toda separada”, completa Paulo.

 Paulo ainda aventurou-se nas vendas de chapéus e confecções mais não conseguiu continuar com essas vendas. “As confecções deram certo por um período, mas depois não consegui mais acompanhar o mercado”, confessa ele.

As visitas a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo - CEAGESP eram semanais, lá o vendedor comprava sua mercadoria, e por algumas vezes, Paulo lembra que se perdia na imensidão do lugar. “Eu viajava a noite toda para chegar a São Paulo, uma vez, não conseguia encontrar a banca do Cabeção, o feirante que sempre me recebia, mas foi ele quem me encontrou no meio das ruas do CEAGESP, perdido”.

O trabalho no mercado o permitiu participar de várias gerações. “Temos clientes que convivem conosco há mais de 40 anos, e assim trazem os filhos, os netos e participamos de toda a família”, orgulha-se ele.

Ainda na época do antigo mercado, Paulo se lembra das visitas famosas que pode vivenciar. “Uma vez atendemos o elenco da novela “Nino, o Italianinho”. A novela teve algumas cenas filmadas em Poços. O Juca de Oliveira e todo o elenco da novela foram ao mercado. Recebemos também o cantor sertanejo Marcelo Costa, de Andradas”, comenta ele. Esse encontro com várias pessoas é um fato que enaltece o trabalho do comerciante.

A banca hoje vende queijos, doces, pimentas, vinhos, cachaças e produtos da região. “Na época que não tinha laticínios os produtos eram mais artesanais, hoje as regras da vigilância exigem outras práticas de compras e vendas, mudamos a linha para nos adaptar a necessidade de cada mercado”, explica ele.

A banca ocupa um grande espaço no mercado, algumas partes foram compradas, outras alugadas. “Hoje ficamos de olho, quando falam em vender, já estamos de olho”, brinca o comerciante.

A continuação do mercado fica em dúvida, ainda mais pela família, para Paulo, com o estudo e toda a evolução, ele não sente que os netos queiram dar continuidade ao negócio, mas espera ainda poder continuar o que começou há quase 60 anos.

Além do amor pelo trabalho no mercado, Paulo também fala do amor pela sua família e como tudo começou. A esposa encontrou em uma missa de domingo. “Nos conhecemos por acaso, fui á missa em um domingo e a vi junto com as irmãs, gostei dela e não pensei em mais nada além de  acompanhá-la para conversarmos. Eu estava de carro, deixei meu carro aberto no local e a acompanhei. A partir dai deu certo, foi o nosso começo”.

Os três filhos puderam trabalhar com o pai e conhecer as histórias do mercado, alguns seguiram outros rumos, outros continuaram, e hoje além da ajuda do genro, aos finais de semana ele conta com a ajuda dos netos. 

Bruna Santinebrunasantine@hotmail.com

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