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A ELITE (VERDADEIRA)

E SEU COMPROMISSO COM A CIDADE

Eduardo Yázigi

 

            Atualmente se emprega o termo elite (dos endinheirados) para diferenciá-lo da plebe rude, como cantado num samba bem tradicional. Em outras palavras, se alguém ganhar o grande prêmio da Loto, passa a ser considerado membro da nata social... Nada mais falso, ou se preferirem, a elite de hoje depende do tipo de cartão de crédito outorgado pelos bancos. Somos um país em que Bancos classificam os cidadãos com estrelas: são senhas de acesso ao mundo dos escolhidos. Se democracia for isso, decididamente prefiro ser monarquista. Aliás, não é verdade que os países monárquicos se classificam entre os mais democráticos existentes?

A etimologia deriva do francês “elire” ou do português “eleger”, isto é, posicionar pessoas, segmentos sócio culturais cultivadores de tudo o que eleva os grandes expoentes que elevam a condição humana e sua convivência em sociedade. E muito mais.  Tome-se como exemplo os grandes e milionários mecenas que atuaram vigorosamente na construção do Renascimento. Deste ponto de vista civilizatório, conquanto seja altamente válido, muitas vezes obnubila certas condutas cidadãs reprováveis da antiga elite: quem mais corrupto do que os Borga, fautores de iniciativas brilhantes que representam a alma do Renascimento? Neste caso ocorre nobreza social convivendo com vulgaridade do caráter. No entanto, fabulosos nomes da literatura, música, ou ciência se classificam entre a nata qualitativa do mundo. Assim, por exemplo, nos deparamos com Von Humboldt e sua produção, sempre recebido e reverenciado pelas universidades e famílias reais europeias. A conduta cidadã e a personalidade íntima são muitas vezes irreparáveis, mas a contribuição social não pode ser negada.

Em revanche o que dizer do poeta da Revolução Russa de 1917, encarnado em Vladimir Maikovisky, que propôs destruir as melhores pinturas do Museu do Ermitage de São Petersburgo? “Não basta destruir apenas Rafael, tem muitos outros dizia ele”. Diante de tal barbaridade foi obrigado por Lunarchevsky, zelador de cultura, a se retratar em público – senão, o resto da civilização russa haveria de cobrar esse gesto vândalo.  E o pavoroso tirano que foi Stalin, mas responsável pela construção da mais bela estação de Metrô do mundo em Moscou? E Mussolini, até hoje renegado por como ditador - mas construiu a soberba Estação de Trem de Milão num dos mais belos Art-Deco? Note-se então o empenho de certa elite passada, que podia ser escusa, porém compromissada com a qualidade urbana – sem que se olvide de seus crimes contra a humanidade que mecenas levaram a termo. No caso não se pode renegar seus produtos legados às artes ou à cidade. O poder usava o monumental para amenizar seus crimes. De fato, a História é cheia de contradições. Deste ponto de vista vale agora considerar a atual elite brasileira, assim considerada por sua simples posse de bens materiais e não por gestos de nobreza que caracterizam os verdadeiros portadores deste traço, ainda com alguns sobreviventes. Na atualidade brasileira assistimos a um desfile incessante de execráveis maiorais da História da Corrupção. Se os Bórgia também o foram, pelo menos deixaram um fabuloso legado. E os corruptos brasileiro do Lava a Jato: o que legaram ao povo brasileiro além de lições de sacanagem e exaurir as receitas estatais? E ainda há quem renegue esta condição e proclame suas inocências.

Convidado pelo emérito geógrafo francês Paul Claval, considerado o Pai da Geografia Cultural, ganhador do prêmio Vaudrin Lud, desta área acadêmica, equivalente ao Nobel, me convidou para traduzir sua colossal e insuperável obra abaixo citada que relata. Nela ele relata, minuciosamente, como desde o Renascimento Italiano, se produziram joias arquitetônicas e artísticas que fizeram da Itália terra possuidora da metade do patrimônio mundial! Claval documenta centenas ou milhares de autores e obras referentes ao embelezamento das cidades em nome do prestígio e do poder pessoal. Mesmo com Papas ou nobres corruptos? Não se pode negar, mas avalie-se o legado deixado! E depois confiram o que a “crasse” (classe com “r”) política deixou para a cidadania brasileira.  

            Não obstante podemos registrar, com grande orgulho, uma forte presença ativa das elites, sobretudo até os anos 1960. Como é parte da História do Brasil, a presença Imperial de Dom Pedro II podia ser notada em suas idas aos Colégios do Rio de Janeiro a fim de aferir as condições de ensino e aproveitamento dos alunos. O próprio Imperador era um intelectual cultivador das artes e de idiomas. Ela dominava a língua árabe com primor, tendo traduzido para o português, cerca de metade das Mil e uma noites! Numa de suas idas ao Velho Mundo – não posso deixar de citar por ser grandemente ignorado - foi visitar meu trisavô na Síria, considerado até hoje o maior filologista do árabe. Ibrahim Yázigi lhe presenteou três volumes de sua colossal gramática, hoje exposta no Museu Imperial de Petrópolis.

            Armando Salles de Oliveira (1887-1945) foi o maior batalhador pela criação da USP e seu campus, auxiliado por seu cunhado Júlio de Mesquita Filho, da família proprietária do Jornal O Estado de São Paulo. Embora a contribuição da elite para a nação brasileira deste artigo se limite à cidade de São Paulo, em vários outros estados da União, até metade do século XX, muitos segmentos da boa elite, de outros Estado contribuíram voluntariamente à construção da cultura brasileira. 

            Em tempos recentes citarei apenas dois casos paulistanos responsáveis pela criação de dois gigantes patrimoniais urbanos, ambos a partir da década de 1950. O emérito Professor Godofredo da Silva Telles (1915-2009) - que foi casado com expressiva escritora Lígia Fagundes Telles da Academia Brasileira de Letras - liderou com afinco pela implantação do mais belo parque da cidade de São Paulo: o Ibirapuera. Dona Iolanda Penteado, casada com Ciccillo Matarazzo (1903-1983) muito ajudou a montar o colossal MASP - Museu de Arte de São Paulo - não é dos maiores do mundo, mas possui uma raríssima coleção de telas que remontam desde fim da Idade Média, passando pelo Renascimento, e o expressivo século XVIII até chegar ao Modernismo e os dias atuais. Ou seja, um colossal e raro acervo muito facilitado pela elite, inclusive do então Embaixador do Brasil em Londres, Assis Chateaubriand, que adquiriu telas preciosíssimas obras para o acervo de dito museu – uma instituição tão rara e valorizada que desde o início contou a presença pessoal Rainha da Inglaterra a fim de inaugurá-lo em 1968.

            Não resta a menor dúvida que existiram sim, mecenas de uma elite de abnegados que financiavam obras primas da pintura, escultura, arquitetura, música...em contraposição o que hoje se denomina elite é radicalmente diferente, marcada antes de tudo pelo interesse monetário seu próprio e exibicionismo comercial, sobretudo de instituições. Note-se, entretanto que essas instituições culturais são preciosas. Para esses, o compromisso cultural se funda no aumento de seu prestígio financeiro e publicitário. Basta aferir a genealogia dos que detém as grandes fortunas de hoje, originários de grupos sociais, grandemente sem a mínima tradição cultural, ou até mesmo de alfabetização. Enquanto a elite de outrora, rica, se apoiava no interesse cultural, as elites fundadas no dinheiro de hoje se justificam pela riqueza acumulada em imóveis, ações societárias, recursos quase sempre conservados em paraísos fiscais. Entretanto, suas contribuições não deixam de ser altamente válidas do ponto de vista cultural.

Consideradas as origens de fortunas, a nova elite investe sim em fabulosas melhorias culturais tais como o Banco Itaú com seu riquíssimo Centro Cultural da Avenida Paulista de São Paulo, por exemplo. O mesmo se diga do Instituto Moreira Salles, com grandes sedes no Rio de Janeiro e São Paulo. Em pesem tais valores, é generalizado que riquíssimos investimentos se fundam num duplo objetivo: o proveito próprio da isenção de 4% de impostos (Lei Rouanet) + prestígio advindo da publicidade que de suas instituições se faz. No entanto, a maior parte da elite e das fabulosas fortunas da atualidade permanece totalmente isenta de compromissos com o território que lhe propiciou tal condição. Eis a pergunta que denigre e escandaliza a condição monetária das atuais “elites” no poder: quem se responsabiliza por este Brasil que vai de crise em crise, sem que surjam vozes capazes de instaurar uma coisa chamada Democracia, mas não logra a se firmar?

            Em poucas palavras para encerrar esta breve consideração sobre a elite de hoje, considero que seu lado negro reside no total descompromisso com os meios urbanos e culturais em que vivem. Poderes relacionais para tanto possuem, mas não lhes interessa. São incapazes do principal traço que caracteriza a elite: a nobreza. Estimo que só existe uma única forma de facilitar recursos para setores carentes do todo social: impor a taxação sobre grandes fortunas. Em alguns países, a posse de um barril de conhaque bem antigo, um auto de luxo, um cavalo, etc. tem de ser declarada em impostos que chegam a cifras de até 90%. Entretanto, sem um Governo cem por cento socialmente controlado, muitos recursos financeiros desparecem. O Lava a Jato ainda está dando seus primeiros passos. Não ocorreu ao leitor que centenas ou milhares instituições, nos mais de 5.500 municípios, ainda permanecem fora da instância judicial? Sim, ainda existem político e repórteres que não acordaram para esmiuçar as contas históricas, como por exemplo, das construções dos Metrôs de São Paulo e Rio de Janeiro. E as Usinas hidroelétricas? E os aeroportos? E, e, e...

            Se a elite brasileira, certamente com belas exceções de nobreza, se empenhasse pela qualidade urbana e não por sua delapidação, o turismo brasileiro e seus cidadãos viveriam hoje em condições louváveis. Nossa maior esperança é a justiça e exemplo a serem dados pelo Lava a Jato. Isto é, um dos principais fulcros da democracia que ainda há de fazer tremer milhares de instituições públicas.

            O grave pecado das grandes fortunas brasileiras de hoje reside em seu quase total descompromisso com a socialização do país.

            Pergunta final da qual não se pode fugir: O que os detentores do atual poder político e cultural fazem para elevar o baixíssimo grau cultural que impera no Brasil, inclusive em Universidades e mais ainda no ensino elementar?

Para conhecer mais:

CLAVAL, Paul. Ennoblir et embellir. De l’architecture à l’urbanisme. Paris: Les Carnets de l’info, 2017. (Sem ter ainda minha tradução publicada no Brasil).

ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

YÁZIGI, Eduardo. Civilização Urbana. Discípulos do Amanhecer. Planejamento e Turismo. São Paulo, Editora Contexto, 2003.

CHOAY, Françoise. Alegorias do patrimônio.

A casa é do dono, a fachada é do transeunte.

 Lao Tse, Grão-Mestre do Taoísmo, sec. VI A.C.

 

Em primeiríssimo lugar minha definição, hoje disseminada, do que seja um lugar turístico: cidades (ou campos) que apresentem considerável densidade de frequentação turística; dotado de equipamentos (hotéis, pousadas, restaurantes, bares, boates, teatros cinemas, etc.) e serviços (agências de viagem, transportes variados,  etc.) e, o mais importante: uma imagem que o caracterize como tal (paisagens cênicas, espaço público primoroso, limpeza, patrimônio bem conservado, grandes parques urbanos, zonas residências e comerciais bem cuidadas, etc.). Enfim, um conjunto de fatores que permitem qualificar uma área geográfica de lugar turístico. Notar bem: favelas não são lugares turísticos, como se pretende no Rio de Janeiro. São meros lugares de excursão do lugar turismo que é Rio de Janeiro. Qual turista foi tomar banho de sol ou se hospedar em favelas?

O Brasil possui mais de 5.500 cidades sedes de município. Pouquíssimas são alvo de turismo e bem menos ainda consideradas termais. Neste conjunto, tais cidades são raridades afortunadas em função de uso para turistas e aficionados nacionais. Afortunadamente Poços de Caldas é um dos municípios mais brindados desse ponto de vista. Seu requinte urbano começa e se sofisticar particularmente após os anos 1930, 1940 avançando mais lentamente em seguida. Não resta a menor dúvida que a chancela de ser instância termal de primeira categoria se firma com vigor, mas lamentavelmente vem declinando a partir do terceiro quartel do século XX. Veja-se como Bath se corporificou justamente graças ao turismo e ao uso social elegante que dela tiraram partido: o turismo de elite e sua mania de esnobação no século XIX e início do XX. Do mesmo modo, Aix em Provence, Baden Baden, Vichy e muitas outras se mantêm até hoje como centros não só de sociabilidade e lazer, como de curas específicas, desde muito tempo recomendadas por médicos. No que deu a histórica identidade de Poços? E quem disse que uma cidade não comporta outras identidades? O desenvolvimento industrial pode perfeitamente coexistir com as joias da cidade ficando longe. Espaço é que não falta. Basta adequar a Lei de Uso e Ocupação do Solo.

Em função da preciosidade local centrada nas águas, o primor do espaço aberto das cidades passou a ter como obrigatória uma qualidade impecável: não esquecer que a água, até hoje, faz parte de quase todos os rituais religiosos de purificação, por crentes e não crentes. Veja-se por exemplo o uso parapsicológico de jovens se banharem em cachoeiras em nome da energização. Desgraçadamente o Brasil jamais soube continuar o esplendor urbano inicial, chegando ao absurdo presente de deteriorar   quase tudo o que era de alta qualidade. A ignorância brasileira de enfrentar a questão social, desde a “República” (isto é, a coisa pública), não teve capacidade de construir um programa para os escravos libertos, cujos descendentes são muitas vezes considerados seres de terceira categoria. No mais, a dupla brasileira inseparável de corrupção & incompetência chegou a nos colocar entre os países mais displicentes em desenvolvimento, justiça social, prestígio, educação... O sistema educacional é um verdadeiro desastre. Finlândia, Noruega, Coreia do Sul e outros se colocam entre os melhores alunos estudiosos do mundo? Lá vai uma excursão brasileiros à cata de uma fórmula mágica bem depressinha para usar aqui. O prefeito de Bogotá fez maravilhas pela periferia? Lá vai outra procissão. O prefeito Giuliani de Nova York prometeu implantar tolerância zero contra o crime? Lá se foi mais uma excursão. A famosa Escola da Ponte em Portugal logrou louvável sucesso? Lá se foi outra e outra procissão.... É o que chamo turismo de incapazes invejosos. Neste nosso país, vamos de crise em crise sem fazer nada! Corrupção e incompetência de políticos são vergonhosos? Ora essa, não é verdade que os criminosos do Lava a Jato foram democraticamente eleitos? Hitler também! Em que termos considerar a maioria ignóbil? Em contrapartida aonde foi parar aquele agito político e cultural que iluminava Poços de Caldas? Carmem Miranda, Libertad Lamarque, Getúlio Vargas, o Plano Real do Fernando Henrique Cardoso, o..o..o.. O que resta disso tudo? Cadê o brilho?

Um breve olhar sobre Poços de Caldas

            Tudo indica que os gestores da Economia Nacional ignoram olimpicamente que a qualidade do turismo é um dos fatores que mais acenam para investimentos estrangeiros. Economia esta que poucos sabem, ser ela posicionada entre os primeiros colocados do mundo, logo após a indústria bélica. Em mais de vinte anos de estudo, conheço pouquíssimos prefeitos e vereadores que se tocam com a deterioração do espaço público brasileiro, com o qual sofre diariamente a população e afasta os turistas minimamente exigentes. Vamos ver o que me abalou com um breve olhar sobre Poços de Caldas?

Thermas Antonio Carlos, inteiramente restaurada com primor, é o fatos principal que justifica a qualificação de Poços de Caldas como cidade termal, desde sua inauguração, em 1931.

Identidade. Termo que vem do grego Ídios = parecido consigo mesmo. Daí as palavras idioma, idiossincrasia, idoneidade, idiota (cujo significado primeiro é o do ser ensimesmado), etc. Um lugar sem identidade, que se constrói ao longo do tempo, é uma coisica qualquer. A Identidade de Poços de Caldas sempre foi a de ser Águas Termais – fator este que começa a declinar, mas ainda em tempo de plena recuperação se contar com a participação da elite que possa existir no município. 

Vista do fabuloso parque, tomada de uma das laterais do Palace Hotel. Isto é o que deve obrigatoriamente existir na ambiência de um bem tombado. Foto de Eduardo Yázigi. Poços de Caldas, 10.05.18

Fachadas. De acordo com as normas internacionais de proteção ao patrimônio, o que mais configura um bem são as fachadas, podendo-se manipular os interiores em nome dos mais modernos recursos modernos. Apenas imóveis com interior de importância histórica e artística é que devem ser inteiramente preservados. Uma das praças mais aristocráticas do planeta, a Place Vendome de Paris, como muitíssimas outras, foi loteada com a obrigação de os proprietários conservarem as fachadas impostas em contrato público. O mesmo sucedeu na quilométrica Rue de Rivoli de Paris e milhares de outras pelo mundo afora. E o que vejo em Poços de Caldas? Fachadas importantes ou de valor menor serem vilipendiadas com imensos cartazes horrorosos que chegam a impedir a visão do bem que há por trás, com suas publicidades horrorosas. Decididamente o poder de Poços de Caldas ignora o que seja zona de ambiência de um patrimônio, em complemento às fachadas. Por igual calçadas, do mesmo modo, ultrajam a ideia de patrimônio vizinho ou mesmo não patrimônio. Aliás, no contexto de horríveis fachadas observáveis em Poços, calçadas foram “legalmente” zoneadas para favorecer comércios como restaurantes que passam dominar dois terços dos passeios como área sua, deixando mísero 1/3 para pedestres. A demarcação favorece proprietários que ganham espaço sem pagar aluguel. Estranha democracia que é esta.

Edificações. Em geral, públicas e até privadas, são construídas sem o mínimo rigor estético. Mesmo as mais pobres poderiam ser feitas com cuidados primorosos. Vede as casas vernaculares dos lugares mais pobres do mundo. Vide as construções invejáveis de nossos indígenas. Por qual razão não existe ou não se exige qualidade de uma possível Comissão Municipal de Estética composta de notáveis experts – eticamente vindos de fora do município e das faculdades de arquitetura? Para mim, o Brasil é o país mais enfeado do planeta em relação que fôra.

Comércio popular em trailers à beira do riacho. Isto é o que se pode denominar vandalismo natural, isto é, acabar com todo e qualquer idílio possível à beira d’água na contramão do que todo o mundo civilizado pratica. Foto Eduardo Yázigi, Poços de Caldas, 10/05/18.

Zonas de Ambiência. Afora a belíssima região do Palace Hotel, do Casino e do glamoroso parque, zonas de ambiência comprometem o que há de melhor. Haverá maior barbaridade do que trailers à beira de um rio que poderia ser idílico? Há coisa mais pavorosa do que a estação de embarque do funicular na zona de ambiência do tombado Palace Hotel?  E o que falar do monstrengo chamado terminal urbano de ônibus? E os terríveis restos mortais do que pretendia ser um monotrilho que está a horrorizar aquela que poderia ser uma das mais belas avenidas da cidade? E o que falar de um Casino em cuja entrada jaz um córrego de urina? Não nascemos para viver em latrinas!

Conservação de edifícios tombados. Está universalmente aceito que nenhum patrimônio do mundo pode se sustentar sem gerar renda em seu próprio benefício. Visito a Terma Antônio Carlos, magistralmente restaurada, com um regime de funcionamento tanto incômodo como impeditivo de um belo usufruto. O leitor acha lógico impor a tal instituição um horário como de um órgão do funcionalismo público? Que mentalidade obtusa é esta? Então, ao final do dia, cansados do trabalho, cidadãos não podem permanecer na mesma além das 19 horas? Não se pode prolongar um espaço de sociabilidade que costumam ser as saunas, como existiu antigamente em Poços? Não se pode tomar um gole de água mineral na cidade? Nem uma cerveja ou sanduíche? Sim, sem renda se cai na mentira hedionda que intelectuais inventaram aos pobres com o nome de Turismo Comunitário. Faz-me rir, que turismo é este que se o miserável residente não tem banheiro decente nem para si mesmo ainda deve oferecê-lo ao turista? Mentira hedionda essa que afirma ser o turismo voluntário favorecedor da renda dos pobres residentes. Que me provem isto!

Rua 100% entupida de mobiliários que impedem a liberdade e ir e vir, ainda o suposto patrimônio acima da cobertura do restaurante. Se o patrimônio depende antes de tudo da fachada, por qual razão não despatrimonializá-lo se as tralhas tudo encobrem? Com efeito, acima do que se vê jaz um imenso cartaz, no comprimento e na altura que, estanho na rua, não se pode sequer ver o que há por cima. Notem no chão a demarcação oficial cedida pelo poder público ao interesse exclusivo do privado. O que sobra para o pedestre caminhar? Foto Eduardo Yázigi,Poços de Caldas, 10/05/18.

Espaços públicos cheios de equívocos. Seria impossível comentar todos. Vou me limitar a apenas um: a esquina da Praça Pedro Sanches com a Rua São Paulo, de fronte de uma agência do Banco do Brasil. O que aí vemos? Uma calçada ladrilhada com cerâmica Gail, isto é, tão lisinha em que, em dia de chuva, se pode escorregar e cair direto no pronto socorro.

"O tão famoso como já íntimo restos mortais do monotrilho de Poços de Caldas, nos tem assombrado durante perto de duas décadas, Agora tem que ser cremado, pois esta anuviando de negro aquela que poderia ser a mais bela avenida de Poços de Caldas. Há de se encontrar um responsável, seja ele privado ou público. Para quê existem o Direito Público  e a Jurisprudência? Foto Eduardo Yazigi, Poços de Caldas, 10/05/18".

Quatro Universidades em Poços de Caldas. Sim, que beleza saber que uma pequena cidade comporta tão insignes instituições de alto nível. E o que é melhor, com uma juventude discente vibrando por concretizar seus ideais. No entanto, muito mais ainda me alegraria saber que a Universidade existe para servir a Sociedade. Diante de tantos revezes, e de tanto espírito crítico que a juventude aparenta ter, sinto falta de algo sagrado nas universidades: ter uma cara voltada para o mundo com tudo o que ele comporta, e outra dirigida para seu lugar. Assim como as duas Faces de Janus. Por qual razão não existe uma linha de financiamento destinada unicamente para os estudos rigorosos do lugar e de seu desenvolvimento sustentável? Os estudantes que se mobilizem! Andem, criem uma linha de desenvolvimento local! Quero ver que instituição se nega a isto!

Finalmente. Como qualquer pessoa posso ter me equivocado em um ou mais pontos que rogo ao leitor me corrigir. Se assim for, poderei submeter ao IPHAN e à UNESCO me darem sua opinião sobre algo meu de errado no que concerne a conservação do patrimônio, seja ele nacional, estadual ou municipal. A coisa é séria demais para ser discutida com “achismos”.

            Não sei se me equivoquei fazendo alguma observação sem sentido. Não sei o que pensa o leitor deste fabuloso Blog do Polli. Os clássicos historiadores costumam afirmar que a produção da História deve ter pelo menos dez anos de distância do fato analisado porque a emoção pode adulterá-la. Neste sentido entendo este Blog mais importante do que um jornal comum por sua abertura ao debate. Quais outros meios permitem uma participação que tanto se propaga? Nunca se deve perder de vista que um jornalismo consciente ou parcial sempre foi uma fonte de documentação. O jornal é um documento assim como gravações televisivas, decretos, livros de outros historiadores. Ele mostra a voz da consciência de vários segmentos. A vantagem do jornalismo reside em sua contemporaneidade das mentalidades e de suas relações de força.

Eduardo Yázigi – Professor livre docente de doutorado na FFLCH USP; Pesquisador Nível A-2 do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Desenvolvimento Tecnológico CNPq; Fundador e Líder do Diretório de Pesquisas voltado à Organização Territorial do Turismo, onde apenas doutores são admitidos, com participação de outros países, como Argentina e Portugal.  edyaz@usp.br

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