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Ronaldo Corrêa- Nadinho

Bruna Santine

Ronaldo Corrêa divide com o Construindo Nossa História os causos da sua vida e a relação muito próxima com o Hotel Quisisana, hoje, condomínio. Ele relembra as épocas de glamour, como muitos dos nossos entrevistados também lembraram e conta como foi nascer, crescer e viver no local de trabalho, onde há 26 anos é gerente.

Ronaldo Corrêa, mais conhecido como Nadinho, nasceu dentro do Hotel Quisisana, lugar que o pai, Gabriel Antônio Corrêa- Seu Zico- trabalhou na construção e permaneceu por 46 anos. Seu Zico veio da região rural do Campestrinho e foi um dos primeiros funcionários do então hotel. Nadinho aprendeu os ofícios do lugar e cresceu junto com o hotel.

O Hotel Quisisana, segundo Nadinho, teve duas inaugurações, uma em 1935 com metade do prédio construído, quando já começou a funcionar e outra em 1940, quando a outra parte do hotel foi finalizada. O local foi idealizado como um hotel fazenda, mas os jogos era o que impulsionava a economia da época e várias salas foram instaladas. O hotel funcionou até 1963 e os jogos eram o principal atrativo. “Vi os vestígios dos jogos, algumas mesas paradas. Foi uma época que se ganhou muito dinheiro, principalmente quem trabalhava direto com o jogo nas noites de Poços”, comenta.

O gerente começou a trabalhar no hotel aos 8 anos. Em 1953 trabalhava como auxiliar nas quadras de tênnis. “Trabalhei como ajudante na montagem das bandejas para os hóspedes e fui aprendendo várias funções até chegar a gerente, função que ainda ocupo”, enaltece.

 De 1953 a 1963 Nadinho trabalha para o hotel, depois dessa data, ele passa a trabalhar no Condomínio. Essa transformação, de hotel para condomínio, aconteceu após o falecimento do proprietário Vivaldi Leite Ribeiro. Os filhos decidiram transformar o local em condomínio.

O anúncio para a venda do Hotel foi feito em grandes jornais de circulação nacional, como a Folha de São Paulo. As propagandas enfatizavam o privilégio dos moradores terem um hotel próprio. Os quartos variam de tamanhos de 24 a 50 metros quadrados. Todos têm direito a usufruir da estrutura do hotel e os serviços extras são pagos.  A maioria dos moradores é de fora de Poços e costumam vir nas temporadas, mas há 25 famílias que moram permanentemente no local.

O agora condomínio tem 237 quartos. O cinema tem duas sessões a tarde, para crianças e a noite, para adultos. “Muitos apartamentos foram reformados e modernizados”, comenta Nadinho. O condomínio conserva a estrutura do hotel com piscinas de água fria e quente, churrasqueiras,  balneário, cinema, sala de musculação, restaurante, cabelereiro e barbeiro. Dentro do condomínio há fontes de água sulfurosa. 

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A melhor época

Não se pode deixar de falar da época em que o Hotel teve seus momentos de glória. Em 1949, a seleção brasileira se hospedou no local para a concentração para a copa de 1950. Getúlio Vargas, amigo do proprietário, também se hospedava no local. Entre os presidentes, Juscelino Kubitschek também passou pelo lugar.

O local ainda foi cenário de duas novelas globais, “Livre para Voar” com Tony Ramos e a minissérie “Memórias de um Gigolô’, com atores como Ney Latorraca e Bruna Lombardi todas filmadas no interior do hotel. “Nós funcionários também participamos das gravações como figurantes”, recorda o gerente. A maioria das gravações foi feita na boate do hotel que sempre foi famosa por suas festas e recepções.

O Hotel Quisisana foi construído e idealizado por Vivaldi Leite Ribeiro, que era arrendatário do Palace Hotel. Depois de uma briga judicial, ele comprou as terras do hotel e levou os cassinos para o Quisisana. Outra construção do hoteleiro foram cassinos no centro da cidade, o Cassino Imperial ficava onde hoje o prédio do Banco Itaú se localiza.

Nadinho lembra que os hóspedes que ficavam no hotel eram pessoas muito ricas, a diária do hotel era cara, e através desses turistas, a população de Poços via os carros da época, as novidades que essa elite trazia para a cidade mineira. Os turistas vinham principalmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. “Nessa época o que os atraía eram as fontes sulfurosas, temos um balneário completo com os banhos, sauna e ducha”, explica ele.

Casado, com duas filhas e uma bisneta Nadinho morou no Quisisana por alguns anos, mas a proximidade com o trabalho o fez mudar para uma casa fora do local para que pudesse ter mais sossego.

Além do trabalho intenso no hotel, Nadinho também participou ativamente do bairro da Cascatinha, bairro onde nasceu. “Fui presidente da associação de bairro por três mandatos, durante esse período trouxemos benefícios para o bairro”, comemora ele.

Alguns dos feitos que Nadinho conseguiu no seu mandato foi a construção do ginásio Moleque César, a escola que fica perto do ginásio também foi iniciada pela motivação dos moradores. Como representante da comunidade, Nadinho foi presidente da escola de samba Vivaldinos da Vivaldi em 1990, quando conseguiu, pela primeira vez, o título de campeã do carnaval de Poços.

O ginásio Moleque César foi assim nomeado em homenagem a um jornalista e jornaleiro chamado César. Ele trabalhava no jornal do padre Trajano Barroco, Diário de Poços de Caldas. Foi denominado jornalista porque criou o plantão policial da cidade e jornaleiro porque entregava os jornais pelas ruas. “Muitos vereadores queriam colocar o nome de pessoas poderosas da cidade, mas a associação reforçou que o ginásio tinha que carregar o nome de uma pessoa do bairro”, enfatiza Nadinho.

A música também sempre esteve ligada a vida do gerente. Além da escola de samba do bairro, Nadinho ainda se aventurou na abertura de uma boate, a Sobradinho, onde como músico apresentava-se nos finais de semana com seu grupo. “Recebíamos duas mil pessoas aos sábados”, comenta ele que junto aos sócios fez muito sucesso na cidade. A boate Sobradinho surgiria no lugar de uma outra antiga boate a “Ferro Velho” na avenida João Pinheiro.

 O grupo de Nadinho e seus amigos, o Samba Poços, não só abriu a Sobradinho, como trouxe, pela primeira vez, o trio elétrico para os carnavais de Poços. “Tínhamos um grupo titulado “Uai” para participar de festivais na região. Era sempre o mesmo pessoal, eu, Lorinho, Ditinho, Guerrinha e o Porrete. Mais o nosso sucesso foi a primeira roda de samba na cidade com o grupo Samba Poços”, enaltece o músico.

Em suas palavras, Nadinho explica que a música está no sangue e até hoje gosta de reunir amigos para cantar e tocar.  A banda chegou a tocar nos réveillons do Hotel Quisisana, mas depois da morte de um dos integrantes, o grupo parou. “A saudade do nosso parceiro foi muito grande, todos sentimos a falta dele”, lamenta ele.

A escola de samba do Hotel Quisisana foi também outra atração da época, os hóspedes se organizavam e saíam todo ano com a escola “Quisisamba”, que também foi campeã muitas vezes na cidade. “Minhas filhas também saiam nessa escola, estavam sempre próximas de mim”, lembra ele da proximidade do hotel com a família. 

Com o contato intenso com os moradores, Nadinho acompanha as gerações dos moradores e fez muitos amigos no trabalho da gerência que iniciou há 26 anos. Ele fala como é um privilégio poder trabalhar em um local tão bonito. “Todos os dias eu tenho o privilégio de ver esse local com muito verde, animais que criamos e toda a extensão que carrega”, diz.

Nadinho tinha o sonho de escrever um livro sobre a história do Quisissana, guardou por muitos anos os registros vividos no local. Em parceria com a escritora Lia Campos Ferreira conseguiu reunir as principais histórias e eternizar os momentos passados no hotel. “Entrevistamos muitos músicos que participaram das noites na boate e pessoas que frequentavam e gostavam do hotel”, comemora ele.

Sobre o nome do livro, Nadinho fala que um dos moradores do condomínio em conversa com o espírita Chico Chavier escutou do médium que havia dois lugares que tinham vibrações positivas em Poços, o jardim atrás do Palace- Parque José Affonso Junqueira,  e o Hotel Quisisana.  Por isso o nome- Quisisana  Fonte de Luz no Coração de Poços de Caldas. “Com esse livro Lia conseguiu o diploma da academia de letras de Poços de Caldas”, conta o gerente.

 Ainda no ramo profissional, sempre ligado ao trabalho com o hotel e, posteriormente, condomínio. Nadinho ainda foi o primeiro profissional a trabalhar com locutora de som na cidade, por causa dos shows, viu a necessidade de alugar esses equipamentos e a possibilidade de ter sua própria empresa.

 Na vida política, trabalhou como coordenador da campanha do candidato a presidência Fernando Collor de Melo. Para um comício do candidato a prefeito de Poços na época, Ronaldo Junqueira, trouxe pessoas importantes como Thomaz Green Morton, famoso paranormal da época e os cantores Pepeu Gomes e Baby Consuelo.

 Aposentado, teve em sua carteira um único patrão, o Hotel Quisisana. Relembrando os 63 anos de trabalho, Nadinho agradece as oportunidades que teve. “A minha passagem por aqui é abençoada, consegui construir uma escola, a ajudar a manter o Quisisana, animar carnavais da cidade, e trabalhar com a música”, comemora o gerente, músico e admirador de Poços. 

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